Imagem ilustrativa da imagem A aventura do Paraná
| Foto: Paulo Briguet



O trabalho do escritor, como meus sete leitores sabem, é um dos mais solitários do mundo; justamente por isso, precisa ser constantemente realimentado pelo hábito da conversação. Nesta semana, tive a honra de entrevistar novamente o professor João Baptista Bortolotti (foto), um dos mais conceituados urbanistas paranaenses. De conversas com o Bortolotti nós sempre saímos mais ricos – no sentido intelectual do termo.

Em dado momento do nosso diálogo, Bortolotti mencionou o engenheiro e escritor inglês Thomas Plantagenet Bigg-Wither (1845-1890). O jovem aristocrata aventureiro esteve por três anos no Brasil, percorrendo os sertões desconhecidos do Paraná, entre 1872 e 1875. O objetivo da expedição era verificar as possibilidades para a construção de uma grande ferrovia ligando o Atlântico ao Pacífico, a partir de Curitiba.

De volta a Londres, Bigg-Wither escreveu um livro com o relato de sua expedição às florestas paranaenses, "Pioneering in South Brazil" (1878). A edição brasileira só sairia quase cem anos depois, em 1974, com o título "Novo Caminho no Brasil Meridional – A Província do Paraná", graças à iniciativa do professor e crítico paranaense Temístocles Linhares (1905-1993).

Esse gênero não ficcional de aventuras fazia grande sucesso na sociedade britânica entre o final do século XIX e o início do século XX. "Pioneering in South Brazil", publicado pelo famoso editor londrino John Murray, teve inúmeros leitores, entre os quais eu destacaria dois: o romancista e poeta Thomas Hardy (1840-1928) e Simon Joseph Fraser, mais conhecido como o 14º Lord Lovat (1871-1933).

Hardy inspirou-se no livro de Bigg-Wither para criar Angel Claire, personagem do romance "Tess D’Urbervilles" (1891). Trata-se de um jovem inglês que se enfronha no sertão do Paraná após um rompimento amoroso. O uso do termo "Paraná" por Hardy chegou a provocar uma polêmica literária entre dois importantes intelectuais brasileiros: o já citado Temístocles Linhares e o sociólogo e escritor pernambucano Gilberto Freyre.
A inspiração para o Lord Lovat foi de outra natureza: a aventura de Bigg-Wither demonstrou que as terras do Paraná eram perfeitas para um novo e ousado projeto de colonização. Dessa centelha, nasceria a Companhia de Terras Norte do Paraná.

Há uma frase do poeta e dramaturgo Hugo von Hofmannsthal (1874-1929), que costumo sempre citar nesta coluna: "Nada está na realidade política de um país se não estiver primeiro na sua literatura". O livro de Bigg-Wither confirma e expande a máxima de Hofmannsthal para além do universo político: ali nós vemos a imagem, em potência, de uma civilização que décadas mais tarde existiria em ato: o lugar em que nós vivemos.

Pioneiros, em todas as formas da atividade humana, são aqueles que conseguem enxergar o visível no invisível, o ato na potência, a realização na possibilidade. A grande estrada de ferro que ligava os dois oceanos acabou não sendo construída, mas foi ali se abriu um caminho que conduz até o lugar em que eu e vocês vivemos hoje.

Bigg-Wither, nosso precursor, nosso irmão.

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