A adoração do mau ladrão
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segunda-feira, 29 de janeiro de 2018
por Paulo Briguet 

Naquela tarde, um dos dois ladrões disse a Jesus:
Não és tu o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós.
O outro ladrão interrompeu o primeiro e retrucou:
Nem sequer temes a Deus estando na mesma condenação? Quanto a nós, é de justiça; pagamos por nossos atos; mas ele não fez nenhum mal.
E, voltando-se para o crucificado que estava no meio, acrescentou estas palavras lancinantes:
Jesus, lembra-te de mim, quando vieres com teu reino.
A resposta de Jesus é ainda mais avassaladora:
Em verdade, eu te digo, hoje estarás comigo no Paraíso. (Lc 23, 39-43)
Analisemos por um instante a psicologia dos dois ladrões.
O primeiro ladrão sabe que errou, mas acha que o mundo lhe deve alguma coisa. Ele transforma o próprio sofrimento em rancor, ressentimento, blasfêmia. Embora esteja consciente da própria culpa, continua cheio de si até o último instante. Como só acredita nas coisas deste mundo, exige de Cristo um ato radical, absoluto, definitivo, espetacular, revolucionário. Uma prova de poder.
Também o segundo ladrão se sabe culpado. Mas ele já não está mais em condição de blasfemar ou fazer exigências. Imagine-se o esforço daquele homem, já quase asfixiado, para repreender o companheiro de infortúnio e dirigir uma última palavra ao torturado inocente.
No último instante, o bom ladrão desinflou-se de si mesmo. Perdeu o ar, ganhou a vida. É por isso que na tradição da Igreja o bom ladrão leva o nome de São Dimas. Dimas significa "pôr do sol": salvou-se no último estertor.
Agora me diga, com toda sinceridade. Entre todas as figuras políticas nacionais que açoitam nossas vistas e ouvidos cotidianamente, qual seria a mais perfeita imagem do mau ladrão aquele que não perdoa nada, não reconhece nada, não abre mão de nada e exige tudo?
Quem seria o mau ladrão de nosso tempo aquele que provoca, aquele que zomba, aquele que blefa, aquele que deseja vingança? Quem seria aquele que exige o Reino de Deus aqui e agora, e não na eternidade? Quem seria o homem ávido por virar jogo e submeter todos os seus inimigos, reais ou imaginários, às piores atrocidades? Quem seria o vingador do Calvário de nossa época?
Todo aquele que exige a presença de um Jesus revolucionário, vingador e justiceiro social esse age exatamente como o mau ladrão.
Todo aquele que reivindica direitos sem deveres esse age exatamente como o mau ladrão.
Todo aquele que quer salvação sem esforço esse age exatamente como o mau ladrão.
Todo aquele que exige perdão sem arrependimento esse age exatamente como o mau ladrão.
Nos últimos dias, nós temos visto no Brasil os rituais de uma estranha seita que elegeu como divindade o crucificado errado do Calvário. São os adoradores do mau ladrão.
Se não voltarmos a face ao Único que pode nos salvar, não teremos nunca a recompensa de Dimas. Se não fizermos nada, os súditos do mau ladrão irão governar a nossa fé, o nosso futuro, a nossa vida.
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