O coração e as pedras

“Águas no Norte”, romance de Ian McGuire, aborda a amoralidade presente na natureza e no coração de alguns homens

Marcos Losnak  Especial para a Folha2
Marcos Losnak Especial para a Folha2

 Ele existe em algum lugar. Seja nas sombras da noite ou na claridade dos dias. Sempre está em algum lugar. Seja no silêncio dos homens ou nas vozes dos olhos. Sempre discreto. Um elemento imperceptível até o momento em que se revela.


 Todos possuem alguma ideia onde ele reside, mas preferem não olhar para o local de sua residência. Um elemento que pode ser chamado de maldade, impiedade, horror, crueldade, desumanidade, malignidade, perversidade, monstruosa cobiça ou muitas outras coisas mais. O nome geralmente não interessa muito, mas sim o impacto que ele provoca quando desvelado.

           

 

O coração e as pedras
 


O escritor inglês Ian McGuire realiza um desenho desse impacto em “Águas do Norte”, romance que acaba de ser lançado pela editora Todavia. Um desenho de como esse impacto apresenta a amoralidade como algo sempre presente em alguma região do coração dos homens. 

           

Primeiro romance de McGuire publicado no Brasil, “Águas do Norte” é ambientado na época da caça de baleias, na segunda metade do século 19. Uma época em que a economia do óleo de baleia, que alimentava as lamparinas das cidades, começa a entrar em declínio. Um declínio causado tanto pelo desaparecimento dos cachalotes devido à caça desenfreada, quando à descoberta dos derivados do petróleo e a popularização da parafina.

           

 

O coração e as pedras
 

“Águas do Norte” narra a conturbada trajetória de Patrick Sumner, um médico irlandês que resolve fazer parte da tripulação do navio baleeiro Volunteer, mesmo recebendo um salário medíocre de acordo com sua profissão de médico.

           

Na verdade, Patrick esconde um misterioso passado. Como médico do exército britânico na guerra contra os sipaios na Índia, Patrick foi expulso da corporação por motivos ocultos e nebulosos. Sem conseguir outra função na medicina da Inglaterra, resolve embarcar num navio baleeiro. Imagina necessitar de uma viagem de purificação do passado.

           

O navio parte em direção ao Ártico com a missão de voltar antes do inverno, matando o máximo de baleias que encontrar pela frente. A viagem começa pacífica, mas ao longo dos dias estranhas coisas começam a ocorrer na embarcação com uma tripulação totalmente masculina. Misteriosos abusos sexuais e assassinatos aparecem. E Patrick, no papel de autoridade médica, tenta resolver os sinistros acontecimentos.

           

Logo de início tromba com o arpoador Henry Drax, um tipo de homem determinado em agir antes de pensar. Um homem que cultiva dentro de si uma conduta diabólica. E o choque entre Patrick, um homem em busca de redenção, e Henry, um homem em exercício de sua crueldade, torna-se inevitável.

             

Mas a navegação banhada em sangue de baleia e sangue humano possui mais e mais segredos. A verdadeira missão do capitão do Volunteer não reside em voltar à Inglaterra com o navio cheiro de tonéis de óleo de baleia. A verdadeira missão é tentar forjar um acidente fatal com a embarcação com o objetivo do proprietário do navio receber um volumoso valor de seguro.

           

Em “Águas do Norte” nada acontece de acordo com aquilo que as personagens calculam, programam, desejam ou esperam. Tudo se movimenta e se modifica o tempo todo. Uma parte as forças da natureza selvagem se encarrega das modificações. Outra parte fica por conta dos interesses humanos que se movimentam e alteram de acordo com o contexto.        

           

Diante de um universo completamente imprevisível, a tripulação do Volunteer acaba perdida e desamparada em pleno inverno ártico. Para sobreviver, precisa da ajuda de esquimós. Em “Águas do Norte”, Ian McGuire desenvolve uma narrativa sobre a sobrevivência de algum tipo de princípio humano. Ou sobre a necessidade de que algum princípio humano sobreviva ao mundo. Um romance de grandes amplidões.

           

Uma das passagens mais emblemáticas da narrativa pode ser encontrada no episódio em que Patrick, tentando sobreviver ao gelo polar, mata um urso e entra, literalmente, dentro de seu corpo: “Ele se detém por um instante, reflete, e então, como se fosse mergulhar na banheira, se agacha e entra na cavidade rubra e estriada. Os ossos partidos se fecham em torno dele como dentes. Os músculos rígidos acomodam seu corpo. Há um odor úmido e puro da carnificina, bem com um resíduo tênue e maravilhoso de calor animal. Ele recolhe as botas para dentro do vão do abdome e puxa a carne morta ao redor do corpo como se vestisse um sobretudo. Ainda escuta o vento rugir, mas já não o sente. Está encolhido, enfiado dentro de um caixão, de uma escuridão aconchegante e vascularizada. Sua língua mutilada começa a inchar dentro da boca, sangue e saliva borbulham dos lábios e escorrem pela barba. Tem vontade de rezar, de falar, de fazer com que saibam dele. Lembra-se de Homero, mas quando tenta murmurar os primeiros dáctilos, o que brota de sua boca rebentada são os grunhidos e rosnados de um selvagem.”

 

Serviço:

“Águas do Norte”

Autor – Ian McGuire

Editora – Todavia

Tradução – Daniel Galera

Páginas – 304

Quanto – R$ 74,90 (papel) e R$ 55.90 (e-book)

 

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