O Paraná reforçou as medidas de vigilância e prevenção contra o sarampo diante da confirmação de casos de transmissão autóctone no Estado de São Paulo. A proximidade entre os dois estados e o fluxo de pessoas entre as regiões aumentam a preocupação da Sesa (Secretaria Estadual de Saúde), que também mantém diálogo com o governo do Paraguai para ampliar a proteção nas áreas de fronteira.

De acordo com a Sesa, o Paraná não registra casos confirmados de sarampo desde junho de 2020, quando foi identificado um caso importado em uma pessoa residente em Curitiba. Mesmo sem circulação viral local, a secretaria mantém ações permanentes de vigilância e prevenção.

Em 2026, até o momento, foram notificados 73 casos suspeitos no Paraná. Desse total, 71 foram descartados e dois permanecem em investigação. Em 2025, houve 259 notificações, todas descartadas, enquanto em 2024 foram 125 casos suspeitos, também sem confirmação.

A preocupação aumentou após a identificação de casos autóctones em São Paulo, ou seja, pessoas infectadas dentro do próprio território, sem que o vírus tenha sido importado de outro local.

Segundo a pediatra infectologista Jaqueline Dario Capobiango, docente do Departamento de Pediatria e Cirurgia Pediátrica da UEL (Universidade Estadual de Londrina) e integrante da AML (Associação Médica de Londrina), esse tipo de ocorrência indica que o vírus conseguiu se manter em circulação em uma determinada localidade.

A especialista alerta que a existência de pessoas suscetíveis à doença é um dos principais fatores que permitem a retomada da transmissão.

Aeroportos e fronteiras

Desde o início do ano, a Sesa intensificou ações de vacinação extramuros contra o sarampo nos aeroportos de Curitiba, Maringá, Foz do Iguaçu, Londrina e Cascavel. O trabalho é desenvolvido em parceria com a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e busca ampliar a proteção em locais de grande circulação de pessoas.

A estratégia também foi levada para as cidades paranaenses de fronteira com outros países, especialmente Foz do Iguaçu e Guaíra. O governo estadual mantém conversas com o governo do Paraguai para desenvolver campanhas simultâneas de vacinação e reforçar a barreira sanitária nos dois lados da fronteira.

A Sesa também promoveu, em parceria com o Ministério da Saúde, uma capacitação para técnicos e profissionais da rede pública, com o objetivo de fortalecer a identificação de casos suspeitos e a capacidade de resposta do sistema de saúde.

No Paraná, a cobertura da primeira dose (D1) da vacina tríplice viral entre crianças de até 1 ano está em 95,02%, índice que alcança a meta de 95% considerada necessária para reduzir a circulação do vírus. Já a segunda dose (D2) está em 80,56%.

Entre 3 de agosto e 1º de setembro, mais de 1,8 mil salas de vacinação dos 399 municípios paranaenses participam da Campanha Nacional de Multivacinação para menores de 15 anos. A mobilização também é uma oportunidade para que adultos verifiquem e atualizem a carteira de vacinação.

No último sábado (22), o Ministério da Saúde promoveu em todo o país o Dia D de Multivacinação. No Paraná, o secretário estadual de Saúde, César Neves, lembrou da importância da imunização. “A gente só erradica doença com vacina no braço. Não é por decreto, na caneta. Com os casos confirmados de sarampo no estado vizinho, todo cuidado é pouco e a solução é a vacina”, afirmou.

Doença altamente transmissível

O sarampo é uma doença viral altamente contagiosa. De acordo com Jaqueline Capobiango, uma única pessoa infectada pode transmitir o vírus para 12 a 18 pessoas suscetíveis. Por isso, a manutenção de uma cobertura vacinal elevada é fundamental para impedir que casos isolados evoluam para cadeias de transmissão.

A retomada da transmissão do sarampo em diferentes países e regiões serve de alerta para a necessidade de manter altas coberturas vacinais. Segundo Jaqueline, a redução da vacinação não é um fenômeno restrito ao Brasil e tem contribuído para o reaparecimento de doenças que haviam sido controladas.

A meta de cobertura de 95% é importante porque reduz o número de pessoas suscetíveis e, consequentemente, o risco de o vírus encontrar indivíduos sem proteção suficientes para continuar circulando. “Se tivéssemos atingido essa meta, teríamos poucas pessoas suscetíveis, o risco de transmissão sistêmica é quase zero”, explica a médica.

A doença pode provocar complicações graves, principalmente em crianças pequenas, pessoas imunocomprometidas e outros grupos vulneráveis. O vírus pode provocar pneumonia, diarreia, desidratação e desnutrição, além de comprometer o sistema imunológico e favorecer outras infecções bacterianas.

O sarampo também pode causar conjuntivite e lesões na córnea, com risco de perda da visão. Em crianças menores de 1 ano, a doença apresenta maior risco de complicações e morte. Em gestantes, a infecção pode aumentar o risco de parto prematuro e está associada inclusive a óbito fetal. “É uma doença que não escolhe sexo, idade, profissão, nível socioeconômico. Pode acontecer em qualquer pessoa que não esteja adequadamente imunizada”, afirma Jaqueline.

Vacina contra sarampo: quem deve tomar e quando

No calendário regular do PNI (Programa Nacional de Imunizações), a primeira dose da vacina tríplice viral, que protege contra sarampo, caxumba e rubéola, é aplicada aos 12 meses. A segunda dose, na forma da vacina tetra viral, que também protege contra a varicela, é indicada aos 15 meses.

De acordo com a Sesa (Secretaria Estadual de Saúde) , pessoas de 1 a 29 anos devem ter duas doses comprovadas na carteira de vacinação. Para quem tem entre 30 e 59 anos, a recomendação é de pelo menos uma dose. Profissionais de saúde devem comprovar duas doses, independentemente da idade.

Quem não tem certeza de que recebeu as doses indicadas deve procurar uma UBS (Unidade Básica de Saúde) com a carteira de vacinação. Segundo Jaqueline, na ausência de comprovação e não havendo contraindicação, a pessoa pode ser vacinada novamente.

A vacina é contraindicada para gestantes, crianças menores de 6 meses e pessoas com imunocomprometimento grave. Por ser uma vacina de vírus vivo atenuado, pacientes submetidos a determinadas situações de imunossupressão, como quimioterapia ou transplante, precisam de avaliação específica.

A pediatra infectologista Jaqueline Dario Capobiango destaca que os efeitos adversos da vacina são geralmente leves, como febre baixa e dor muscular, e costumam durar um ou dois dias. Para ela, o benefício da imunização supera amplamente os riscos, principalmente diante das possíveis complicações provocadas pela doença. “Ao se vacinar, a pessoa protege a si mesma, sua família, seus amigos e a sua comunidade”, resume. ‘.

Para quem vai viajar, a Sesa recomenda verificar a situação vacinal com antecedência e procurar uma UBS entre 15 e 30 dias antes do deslocamento, garantindo tempo para que o organismo desenvolva a resposta imunológica.

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