Turismo no Paraná cresce acima da média nacional
Chamado de ‘indústria sem chaminé’, setor é um dos grandes em contratação de trabalhadores e reflete bom momento econômico do Estado
PUBLICAÇÃO
sábado, 01 de novembro de 2025
Chamado de ‘indústria sem chaminé’, setor é um dos grandes em contratação de trabalhadores e reflete bom momento econômico do Estado

O turismo funciona como um eficiente termômetro para medir o quanto a economia está aquecida. Os números do setor, como fluxo de visitantes, gastos médios, ocupação hoteleira, geração de empregos e arrecadação de impostos, são indicadores importantes que ajudam na compreensão do desempenho econômico de um país, região, estado ou município.
Olhando para os dados do turismo no Paraná, o que se tem são resultados expressivos e em avanço crescente. Passado o período da pandemia de Covid-19, os indicadores do turismo no Estado apontam que a atividade ganha fôlego ano a ano.
Em 2024, das 19,9 milhões de viagens domésticas computadas no país, mais de 1,25 milhão foram para destinos paranaenses, uma alta de 9,1% sobre o ano anterior, quando 1,14 milhão de turistas circularam pelo Estado. Os números são da PNAD Contínua, pesquisa do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) realizada em parceria com o Ministério do Turismo e divulgada no início de outubro.
“O turismo está muito ligado à atividade econômica e ao funcionamento e dinâmica do mercado de trabalho”, avaliou o economista e assessor econômico da Fecomércio PR (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Paraná), Lucas Dezordi.
Quando o bolso aperta, um dos primeiros gastos a serem cortados é com lazer. E quando o orçamento começa a ficar mais folgado, a população passa a viajar mais. Como a economia paranaense está aquecida e com um nível de desemprego muito baixo, de apenas 4,0%, a demanda por serviços de turismo cresceu, acompanhando o bom momento econômico.
Os números do turismo no Estado em 2024 mostraram um crescimento de 7,2%, o dobro da média nacional, de 3,5%, de acordo com a Pesquisa Mensal de Serviços do IBGE.
Além dos fatores econômicos, esse crescimento também é atribuído a um investimento massivo feito por órgãos públicos e empresas privadas no sentido de atrair turistas para outros pontos do Estado além das Cataratas do Iguaçu, em Foz do Iguaçu (Oeste), e do turismo de eventos, que movimenta a capital e as cidades mais populosas do interior.
“É uma soma de detalhes e um esforço do governo estadual em transformar o Estado em uma potência do turismo”, avaliou o vice-presidente de Marketing e Eventos da Abav-PR (Associação Brasileira das Agências de Viagens do Paraná), João Guilherme Rebellato. Entre os “detalhes”, estão os investimentos em infraestrutura em todas as áreas relacionadas ao setor turístico, como maior oferta de voos, inclusive internacionais, ampliação da rede hoteleira e ampla oferta de restaurantes e de atrativos culturais, para citar alguns exemplos. O Natal de Curitiba, famoso em todo o país, neste ano promete ser o maior da história, com mais de 150 atrações e 2,4 milhões de espectadores, entre os quais, 322 mil turistas.
O índice inflacionário mais baixo que a média nacional e os preços mais acessíveis, ajudam a impulsionar o turismo no Paraná, destacou Rebellato. “O crescimento do turismo no Estado vem acontecendo de forma sustentável, nos últimos quatro, cinco anos, como resultado de um planejamento.”
“O Paraná é um novo polo turístico na economia nacional”, afirmou Dezordi. Na Região Sul, o turismo paranaense é o que mais se sobressai. Na PNAD Contínua, o Paraná surge entre os cinco estados brasileiros que mais recebem turistas, atrás apenas de São Paulo, com 4,3 milhões de viagens nacionais, Minas Gerais (2 milhões), Bahia (1,9 milhão) e Rio de Janeiro (1,3 milhão).
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Por sua forte contribuição no desenvolvimento econômico de uma cidade, estado ou região, o turismo é chamado de “indústria sem chaminé”. “É um setor intensivo no emprego de mão de obra. Quando se captura o movimento de contratação do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), principalmente as contratações formais, há uma grande demanda nesse setor por garçons, auxiliares de cozinha, atendentes, vendedores, pessoal de limpeza, operador de caixa. Há uma demanda muito forte na questão operacional, onde o turismo se encaixa bem”, destacou o assessor econômico da Fecomércio PR.
“É um setor limpo, que emprega muita gente e é perene”, disse Rebellato. “E ainda tem muito espaço para crescer. A média de crescimento do turismo no Brasil é 6,5%. No Paraná, foi de 7,5% nos últimos 12 meses, até setembro. No nosso ramo, existe uma demanda grande por agentes de viagem.”
Um aspecto bastante positivo ressaltado por Dezordi em relação às contratações do setor é que os serviços relacionados às atividades turísticas funcionam como porta de entrada para o mercado de trabalho. “Muitas vezes, os jovens com pouca experiência e formação até o ensino médio conseguem uma oportunidade.”
Divulgada na semana passada, a sondagem realizada pela Fecomércio PR em parceria com o Sebrae/PR mostrou a disposição dos empresários do Estado para contratar trabalhadores para preenchimento de vagas temporárias no final do ano.
O levantamento revelou que 12% pretendem abrir vagas para trabalhadores temporários e o turismo é o que mais projeta novas contratações, com 27,1% das empresas planejando ampliar seu quadro funcional. Em segundo lugar, mas bem atrás, está o varejo, com 12,8%. As empresas de prestação de serviços ficaram na terceira colocação, com 6,1%.
A região de Ponta Grossa deverá liderar as contratações, com 20%, seguida pelo Sudoeste (14,8%) e Oeste (14,3%). Londrina é a região com menor intenção de contratação temporária, com 8,6%. A média de contratação é de três profissionais por empresa, prevê a sondagem. “Ponta Grossa tem um crescimento bom, de serviços, acima da média regional, do Estado do Paraná. Vai ter um nível de contratação maior, muito relacionado ao crescimento dessa região”, apontou Dezordi.
Os cargos de vendedor (27,9%) e atendente geral (25,6%) devem absorver o maior número de profissionais , além de funções na gastronomia, como auxiliar de cozinha (20,9%) e garçom (11,6%), indicando a expectativa do setor de bares e restaurantes em relação ao aumento do movimento de frequentadores em razão das festas de final de ano. Do total das vagas que serão oferecidas, 39,5% exigem o ensino médio. Outras 27,9% não especificam escolaridade e 25,6% requisitam apenas o ensino fundamental.
Um dado significativo é que 59,5% das empresas não exigem experiência anterior na função. E quem conseguir uma das vagas poderá iniciar 2026 com emprego permanente garantido já que 69,8% dos empresários afirmaram ter intenção de efetivar os temporários.
Turismos ecológico, religioso e cultural impulsionam o setor no Paraná
As Cataratas do Iguaçu, eleitas como uma das Sete Maravilhas Mundiais da Natureza, e Curitiba, que oferece uma mistura de atrativos naturais, culturais, gastronômicos e arquitetônicos, seguem no topo da lista das atrações turísticas mais visitadas no Paraná. Mas localidades em outras regiões do Estado, com diferentes vocações, também têm ganhado grande projeção no decorrer dos anos.

No segmento de turismo ecológico, as UCs (Unidades de Conservação) paranaenses se destacam. Levantamento do IAT (Instituto Água e Terra) e da Sedest (Secretaria de Estado de Desenvolvimento Sustentável) revelou um aumento de 3,8% no número de turistas no primeiro semestre deste ano quando comparado com igual período de 2024. A UC mais visitada foi a Ilha do Mel, em Paranaguá (Litoral), com 139.601 pessoas. Logo abaixo ficaram o Parque Estadual Serra da Baitaca, entre Piraquara e Quatro Barras, na Região Metropolitana de Curitiba, e o Parque Estadual de Vila Velha, em Ponta Grossa (Campos Gerais), com 45.366 e 31.707 visitantes, respectivamente.
Outro segmento que vem se consolidando ao longo dos anos é o turismo religioso, com a oferta de atrações como a Rota do Rosário, que percorre os Campos Gerais e o Norte Pioneiro, o Caminho de São Miguel Arcanjo, em Prudentópolis (Centro), e Itaipulândia (Oeste), onde o monumento de Nossa Senhora Aparecida atraiu, neste ano, mais de 120 mil romeiros para as comemorações do Dia da Padroeira, entre 3 e 12 de outubro.
As atrações culturais também têm uma participação significativa nos indicadores do turismo paranaense. Além dos tradicionais festivais de música e de teatro, na capital e no interior, o Estado tem entrado com frequência cada vez maior no roteiro das turnês de artistas internacionais.
No dia 28 de outubro, a Pedreira Paulo Leminski, que tem capacidade para receber 20 mil pessoas, ficou lotada de fãs da banda norte-americana Guns N’ Roses. E em novembro, a capital terá shows de Billy Idol, um dos grandes ícones musicais dos anos 1980.
No Litoral, o vice-presidente de Marketing e Eventos da Abav-PR, João Guilherme Rebellato, observa um movimento de retorno de turistas. Após uma procura intensa por destinos em Santa Catarina durante a alta temporada, em dezembro e janeiro, as praias do Estado registram aumento gradativo de veranistas. O motivo seriam os investimentos na infraestrutura da região. “Muita gente que tinha uma segunda residência em Santa Catarina, para as férias de verão e feriados, está voltando ao nosso litoral por conta das estradas, dos preços. Muita gente voltou a ter a segunda residência no nosso Estado.”
“O Paraná se consolidou no circuito internacional de shows e, no turismo de negócios, cabe destacar as grandes associações, (nas áreas) médica, odontológica, que fazem eventos na capital. Sem contar os investimentos no Litoral, que geraram um boom imobiliário em Caiobá”, pontuou o economista e assessor econômico da Fecomércio PR, Lucas Dezordi.
Rebellato ressaltou, no entanto, que boa parte das receitas geradas pelo turismo no Paraná se deve à pujança do agronegócio. “O turismo corporativo é um destaque no Estado como um todo, principalmente em Curitiba, Londrina e Maringá. Temos muitas empresas do agro, muitas startups. Há dez anos, era incomum encontrar nos voos para Curitiba, passageiros indianos, chineses, norte-americanos. Hoje, é comum. Muitos vêm ao Estado para empreender, fazer fusões e aquisições de empresas”, destacou.
No ano passado, cada brasileiro que viajou pelo Paraná gastou, em média, R$ 1.588. Já os turistas estrangeiros que passaram por aqui injetaram R$ 5,8 bilhões na economia paranaense, um aumento de 26% na comparação com 2023, quando esse valor foi estimado em R$ 4,6 bilhões. Os gastos dos viajantes de outros países foram calculados pela Secretaria do Turismo do Paraná com base em dados do Ministério do Turismo, Embratur (Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo) e Banco Central do Brasil.
“A parte gratificante de quem trabalha com isso é conseguir bater de frente com estados que têm um apelo natural gigantesco. É o resultado de uma soma de esforços do setor”, disse Rebellato.
Turismo em Londrina aponta tendência de alta, diz empresário
Em Londrina, onde o turismo de negócios e o turismo de saúde superam o de lazer, o comportamento sazonal é diferente. A ocupação nos hotéis e a busca por serviços voltados aos turistas são maiores fora do período de férias. Por isso, o mercado de trabalho do setor não demanda um volume maior de profissionais no final do ano. E mesmo nos meses de maior movimentação, o fluxo de turistas não justifica uma ampliação relevante da oferta de vagas.

Ainda assim, o setor tem crescido, mesmo que timidamente. O que impede um avanço maior são algumas dificuldades relacionadas à infraestrutura do município, como a falta de um centro de convenções e a pouca oferta de voos para a cidade. "Londrina tende a melhorar, mas na minha opinião, ainda está longe do ótimo. Temos algumas dores que fazem com que Londrina ainda tenha muito a crescer", disse o empresário do setor hoteleiro, Pietro Veronesi.
Após a pandemia de Covid-19, o empresário notou uma mudança no comportamento dos hóspedes. Os quartos e camas amplos deixaram de ser o principal requisito na escolha do hotel e a preferência passou a ser o acesso facilitado à tecnologia, com internet de qualidade, reserva on-line e check in e check out automatizados, além de boa localização, que facilita os deslocamentos, e de um café da manhã caprichado. "A tecnologia, com segurança, foi um fator marcante para o setor depois da pandemia."
"Londrina tem uma ocupação média relativamente baixa comparada com outras cidades e o valor da diária média também é menor. Não é como São Paulo, Curitiba, com ocupação alta toda semana, cheia de eventos. Londrina ainda está caminhando para que se torne um grande polo de eventos no meio da semana", comparou Veronesi.
Como aspectos positivos que facilitam esse crescimento, apontou o empresário, estão a localização geográfica, a proximidade com o estado de São Paulo, o clima, a cultura e a boa receptividade dos londrinenses. E alguns investimentos do Estado e do município na infraestrutura de de lazer, também podem ajudar a impulsionar o setor. "Por mais que o turismo executivo seja mais forte em Londrina, com os investimentos feitos no Jardim Botânico, no Parque Arthur Thomas e o projeto do CATI (Centro de Atendimento e Apoio ao Turista Inteligente, desenvolvido pela Governança de Turismo de Londrina e Codel), a tendência é que o turismo de lazer tenha uma melhora, o que é muito bom para a cidade." O CATI deverá ser instalado no Parque Arthur Thomas.
Mesmo que, sozinhas, essas opções de lazer não tenham força para atrair visitantes de outras cidades, quando o turismo de negócios caminha junto com o de lazer, a economia do setor avança. "A pessoa que vem para Londrina fazer turismo executivo sozinho e que normalmente ficaria um ou dois dias, com uma boa infraestrutura de lazer, ela tende a aumentar o número de dias que fica na cidade e pode trazer a família."
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Simoni Saris
Repórter com atuação nas áreas de Economia, Infraestrutura e Agronegócio.




