Encruzilhada da direita clássica
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 24 de janeiro de 2023
Adriana de Cunto 
Volto ao assunto, vendo-o como necessário, mas felizmente perscrutando a aurora de um novo dia. A direita brasileira, a decente e legítima, busca recuperar o seu lugar ao sol e se viabilizar como alternativa de poder, típica de um país democrata. Brasília 08 de janeiro, foi o grande divisor de águas que faltava para que esse segmento despertasse do sono profundo em que caiu. Durante um inverno rigoroso de quatro anos, o antipetismo e a influência da Lava Jato alavancaram para o colo de Bolsonaro uma expressiva fatia de brasileiros que nunca antes tinha flertado com extremismos tóxicos. O vandalismo terrorista da invasão aos palácios dos poderes democratas despertou milhões de patriotas de um pesadelo que os ameaçava lançar para o lixão da história. Viram e assistiram ao vivo e a cores do que uma extrema direita ensandecida e manipulada é capaz.
Segundo parágrafo. Todo o processo de conversão e de um despertar saudável e profícuo exige a renúncia a ideias que não se sustentam numa simples análise lógica e não se coadunam com qualquer coerência. A Lava Jato instigou suspeitas (no mínimo) contra o STF, que deu a última palavra para a libertação de Lula viabilizando a sua candidatura. Ora, os ricos que me leem, sabem que a justiça (cara neste país) proporciona o acesso à decisão final. E eles a buscam sempre, pagando ótimos advogados. É um direito e o STF está lá para isso. Pessoalmente, penso que um Tribunal Constitucional exclusivo, que aliviasse o Supremo para as causas dos cidadãos, seria o mais adequado, mas não é o caso. Então, a coerência nos leva a reconhecer que o STF provocado desnudou a Lava Jato de uma série de falhas que não se sustentaram e anulando os processos contra o Lula. Não entrou no mérito das condenações, mas sim no caminho processual. Há, portanto, que aceitar, mesmo discordando, a decisão do Tribunal. O que seria um Estado de Direito em que aceitássemos apenas as decisões favoráveis?! Não posso negar a existência de pertinentes discussões sobre os limites da ação do Judiciário, porém, também há um consenso de que “para grandes males grandes remédios”, quando a sobrevivência da democracia está em causa!
Terceiro parágrafo. Os governos do PT podem e devem ser julgados. E o são de duas formas: a primeira é pelo voto em eleições democráticas onde a soberania popular dá o seu escrutínio. Em 2018, por exemplo, o povo disse não ao petista Fernando Haddad! Vida que seguiu. Em 2022, o povo disse sim a uma frente chefiada por Lula. Vida que deve seguir também. A segunda é pela Justiça. O antipetismo tem duas vertentes. Uma positiva, que é a constatação de que existiram erros e crimes que a justiça se encarregou de julgar e a outra negativa, alimentada por fake news sobre inúmeras mentiras fabricadas em laboratório que foram muito convenientes eleitoralmente para que a extrema direita chegasse ao poder, com o apoio dos que por elas se deixaram seduzir. Uma ideologia pode causar severos danos em pessoas de bom senso!
Quarto parágrafo. A tal da extrema direita não é inédita nem patrimônio brasileiro! Ela movimentou cemitérios, prisões e campos de concentração com torturas no século XX e ameaça ressurgir nos últimos anos. Democracias como na Hungria e na Polónia ou na jovem Turquia caíram implodidas pela bactéria que estou mencionando. O Partido Republicano nos EUA deixou-se seduzir por ela, na ânsia de ocupar a Casa Branca. Assim, direitas saudáveis nesses países sucumbiram ao canto da sereia de que a esquerda e o comunismo em particular precisariam ser eliminados. Foi uma lambança imperdoável e impagável. Hoje na Hungria, partidos da direita mordem os lábios, vendo as Instituições caírem como castelo de cartas!
Desejo profundamente, em nome da democracia, que a direita brasileira se descole do imperdoável e se organize dentro das “quatro linhas”!
Padre Manuel Joaquim R. dos Santos, Arquidiocese de Londrina
Os artigos, cartas e comentários publicados não refletem, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina, que os reproduz em exercício da sua atividade jornalística e diante da liberdade de expressão e comunicação que lhes são inerentes.
COMO PARTICIPAR| Os artigos devem conter dados do autor e ter no máximo 3.800 caracteres e no mínimo 1.500 caracteres. As cartas devem ter no máximo 700 caracteres e vir acompanhadas de nome completo, RG, endereço, cidade, telefone e profissão ou ocupação.| As opiniões poderão ser resumidas pelo jornal. | ENVIE PARA [email protected]


