Um ano sem o “pai” da Mafalda
Morte do cartunista argentino Quino é lembrada neste 30 de setembro, um dia após serem comemorados 54 anos de criação de sua principal personagem
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 30 de setembro de 2021
Morte do cartunista argentino Quino é lembrada neste 30 de setembro, um dia após serem comemorados 54 anos de criação de sua principal personagem
Marcos Roman - Grupo Folha 
O universo dos quadrinhos perdeu há um ano um de seus maiores talentos. O cartunista argentino Quino saiu de cena no dia 30 de setembro de 2020, vítima de um acidente cerebral. A morte do artista é lembrada um dia após o mundo celebrar o aniversário de criação de sua mais famosa personagem: a contestadora menina Mafalda teve sua primeira tirinha publicada há 57 anos, no dia 29 de setembro de 1964.

Nascido em 1932, em Mendonza, na Argentina, Joaquín Salvador Lavado, ou simplesmente Quino, produziu as histórias em quadrinhos mais traduzidas da língua espanhola. Criador de vários personagens, entre eles Manolito, Susanita, Guille, Filipe e Libertad, o cartunista ganhou projeção internacional quando lançou as tirinhas da Mafalda. O carisma da menina de seis anos, feminista, questionadora e preocupada em combater os problemas sociais do mundo ocidental conquistou rapidamente o público.
Mafalda foi criada em 1962, quando a marca de eletrodomésticos Mansfield contratou Quino e pediu que ele desenhasse uma peça publicitária centrada em uma família argentina que usasse os produtos da marca. A empresa pediu que o nome da personagem principal começasse com a letra M, numa referência à empresa. Os quadrinhos seriam distribuídos de forma gratuita nos jornais e revistas. Porém o projeto acabou sendo rejeitado pelos veículos de comunicação da época.
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Dois anos mais tarde, o cartunista passou a usar a figura da menina como protagonista de tirinhas de humor que passaram a ser publicadas no final primeira metade da década de 1960 na revista argentina na revista Leoplan. Em 1965, passou a ser publicada no jornal El Mundo e nos anos seguintes conquistou dezenas de países até que chegou ao Brasil, em 1973. Apesar de retratar hábitos comuns às famílias argentinas de classe média, o carisma da menina inquieta que adora os Beatles, levanta questionamentos sobre o mundo e se mostra defensora da paz, da democracia, dos direitos das crianças, da justiça e das mulheres, em pouco tempo ficou conhecida em diversos pontos do planeta. Humberto Eco definiu o personagem como “uma heroína zangada que recusa o mundo tal como ele é”.
Os livros de Mafalda foram traduzidos em mais de 30 países. A popularidade foi tão grande que a personagem estrelou um filme produzido e lançado na Argentina em 1982. Devido às questões universais abordadas por ela, os quadrinhos de Mafalda passaram a ser muito utilizados por professores de diversos países como materiais didáticos em salas de aula. A projeção internacional atingiu uma proporção ainda maior quando Mafalda encabeçou campanhas sociais internacionais como as da Unicef.
No auge do sucesso da personagem, Quino surpreendeu os fãs de Mafalda ao anunciar que não a desenharia mais após quase 2 mil tirinhas produzidas tendo a menina como protagonista. O último quadrinho inédito de Mafalda foi produzido em 1973. Depois disso, Quino continuou a criar histórias com tom político, muitas vezes sobre opressão e desigualdade social, para jornais de vários países. Aposentado desde 2009, o cartunista morreu na Argentina aos 88 anos, vítima de acidente cerebral.
"Ele está para os quadrinhos assim como Messi está para o futebol", diz Ariel Palacios

Jornalista que trabalha como correspondente internacional do canal Globonews em Buenos Aires há 25 anos, Ariel Palacios avalia que a morte do cartunista representou uma grande perda não apenas para os argentinos. “A humanidade perdeu um grande talento”, destaca ao enfatizar a importância mundial do criador da personagem Mafalda.
Palacios destaca que além de conquistar o mundo com o personagem Mafalda, Quino conseguiu a proeza de se tornar uma unanimidade em seu país apesar da polarização que divide a Argentina há cerca de 200 anos. “Para os argentinos, o Quino está para os quadrinhos assim como o Messi está para o futebol, e Jorge Luiz Borges está para a literatura. Isso é um feito muito raro quando se fala de um país totalmente polarizado”, salienta.
O jornalista atribui a empatia conquistada por Quino entre os argentinos ao talento, à discrição e à coerência cultivadas pelo cartunista. “Ele criticava o totalitarismo tanto de esquerda quanto de direita e nunca expressou simpatia por nenhum presidente argentino. Apesar da excelência de seu trabalho, sempre manteve uma vida discreta e nunca gostou de atrair os holofotes. Era muito tímido e coerente. Tanto que optou por deixar de produzir as tirinhas da Mafalda para não correr o risco de se repetir”, ressalta.
Outra característica positiva que Palacios atribui a Quino é a universalidade dos temas abordados nos quadrinhos produzidos pelo artista. “As tirinhas produzidas por ele são atemporais e desconhecem barreiras geográficas. Pessoas de qualquer país do mundo conseguem identificar em seus quadrinhos as críticas ao totalitarismo, à corrupção, à guerra, ao conservadorismo religioso, ao consumismo e ao machismo. Isso porque nas décadas de 60 e 70 ele falava de temas que continuam atuais e se repetindo em todo o planeta”, ressalta.
Frases de Mafalda:
"Parem o mundo! Quero sair.".
"Se a vida começa aos quarenta, porque diabo nos mandam vir com tanta antecedência?"
"A sopa é para a infância o que o comunismo é para a democracia."
"Não seria maravilhoso o mundo se as bibliotecas fossem mais importantes que os bancos?"
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