Como era não ouvir o bicho que “tem a crista vermelhinha e a perna amarelinha” cantando às cinco da manhã antes de ter um espécime em casa? Nem lembro. Conforme essa descrição simples e inconfundível do hit “Galinha Pintadinha 2”, você já deve saber qual é o barulho de toda sacra manhã. A galinha é tão conhecida que a tal musiquinha infantil tem mais de 334 milhões de visualizações no YouTube. É praticamente a população asmática mundial, à qual coincidentemente pertenço.

Imagem ilustrativa da imagem DEDO DE PROSA: Amada Bó
| Foto: Marco Jacobsen

Todo mundo se levanta e antes mesmo de acostumar a vista à luz do dia, a galinha grita com clamor. A situação se agrava quando ela percebe que algum humano já acordou. Qualquer movimento brusco é um precedente para a extinção do silêncio. É como se ela pensasse “espécie inferior, clamo por sua presença imediata”. Chegou, portanto, a hora de dar oi para BÓ, uma das diversas galinhas da vizinhança.

O galinheiro por si só é um bastião. Gatos da vizinhança ou qualquer fera que ouse cruzar os limites da cidade jamais tocarão nela. Lá estão presentes os icônicos elementos de todo galinheiro: as grades de proteção que sustentam pés de chuchu verticais (um verdadeiro self-service para BÓ); um poleiro capaz de entreter até o maior dos entusiastas de parkour; todo o aparato de provisões e, por fim, um ninho, no qual ela dorme e põe seus ovos.

Quanto aos ovos, é dele que se originam o pão e o omelete, o bolo e o pudim. Depois de botar, é mais gritaria. Talvez tenha sido a inspiração dos próprios carros do ovo que perambulam pelos bairros a ecoar uma mistura eclética de música sertaneja, cantos de galo gravados e a clássica locução barulhenta em alto e desequilibrado som. Nada promove tanto bucolismo quanto pegar um ovo quentinho direto do galinheiro ou receber a visita de um vendedor que fez o mesmo logo antes na manhã.

Assim como a BÓ, as outras galinhas do bairro passam as tardes como guardiãs do território: são galinhas as predadoras naturais de escorpião. O aumento do número de casos de acidentes com esses aracnídeos é crescente a cada ano e é aí que a BÓ e sua irmandade são eficazes. A preocupação com o controle populacional de escorpiões é diretamente proporcional à criação caseira. Mais gente preocupada, mais galinha a cantar nas redondezas.

E na hora de dar tchau, dá para reparar. BÓ, como és engraçadinha. O corpo parece uma nave e a cabeça, um grão de milho. A desproporção tem uma explicação econômica: quanto mais cruzamento para produção, maior o grau de alteração genética da galinha “selvagem”. Quando BÓ e outras galinhas nos acordam de manhã para trabalhar talvez seja uma resposta vingativa ao que o capitalismo fez a ela. Galinhas caseiras vivem a maior parte da vida sem botar ovos. E posso vos garantir, quando a infertilidade chegar, não vai ser como se BÓ nos devesse alguma coisa.

Bruno Codogno é estudante de jornalismo na UEL

Enfim, um complemento para a história da BÓ: ela infelizmente não chegará à infertilidade. O bichinho morreu um dia após a escrita desta história. Um problema que surgiu e levou tão de repente. De qualquer forma, o que ela botou em casa não foram só ovos. Foi simplicidade, daquelas de botar as mãos e os pés na terra. De encardir debaixo das unhas com prazer. Embora despertadoras, as cinco das manhãs não serão as mesmas sem aquela amável barulheira.

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