Cenas de desrespeito à mulher infelizmente podem ser vistas diariamente e muitas dessas situações chegam até nós através da televisão. Na mesma semana os telespectadores puderam ver um concurso de beleza no Programa Sílvio Santos, onde meninas de até 10 anos desfilavam de maiô enquanto os jurados e auditório eram instruídos a votarem observando “quem tem as pernas mais bonitas, o colo mais bonito, o rosto mais bonito e o conjunto mais bonito”. Não faltaram milhares de críticas nas redes sociais, mas a emissora não havia se manifestado sobre o assunto até o fechamento desta edição.

Imagem ilustrativa da imagem Folha Mais - Muito além de um rostinho bonito
| Foto: Marco Jacobsen

Não é a primeira vez que o apresentador cria situações constrangedoras para as mulheres. Em junho de 2017 ele convidou Maisa Silva e Dudu Camargo para participarem da gravação de seu programa e disse que a adolescente, na época com 15 anos, deveria namorar o rapaz, já que ambos estavam solteiros. Mesmo com a negativa da menina, o apresentador não desistiu. Dias depois, chamou novamente os dois para um outro programa, constrangendo Silva, que teria deixado o palco chorando. A cantora Cláudia Leitte também teve seus maus momentos com o apresentador, que disse que a roupa dela o deixava excitado.

Ainda nesta semana, durante o programa “A Fazenda”, da Record, um dos participantes teceu diversos comentários machistas, o que lhe rendeu também uma posição nos Trending Topics do Twitter. O ator Phellipe Haagensen foi acusado de assediar a participante Hariany Almeida. A hashtag #HariMereceRespeito chegou a ficar entre os tópicos mais comentados do Twitter, seguida de #PhellipeExpulso e #Assedio11. Na sexta-feira ele a beijou sem consentimento e parte do público passou a pedir sua expulsão do programa. Durante a semana ele já havia assediado outra participante, Jhenyfer Dulz, lhe dando um beijo enquanto ela dormia. A emissora decidiu pela expulsão do participante na noite de domingo.

Os exemplos vistos na televisão não são nada mais do que um reflexo do que acontece diariamente com as mulheres. Ao se observar a própria história da televisão no Brasil temos diversos momentos de objetificação da mulher. Nos anos 1970 Chacrinha já tinha suas auxiliares que dançavam de maiô, sendo Rita Cadillac uma das mais famosas. Nos anos 1980 os programas infantis traziam suas apresentadoras em shorts e minissaias. Banheira do Gugu, Tiazinha e Feiticeira são apenas alguns exemplos de quadros cuja função não parecia ser nada mais do que conquistar audiência.

“Ao que me parece, essa objetificação da mulher não se origina na TV, até porque compreendo a TV como uma extensão da própria sociedade: ela reflete o mundo ao mesmo tempo em que é refletida por ele. Por isso, a televisão se modifica à medida em que há um movimento social acontecendo, um desejo por mudanças expresso pelas pessoas. No entanto, se considerarmos que há ainda mulheres sendo objetificadas na TV (por exemplo: as dançarinas do Faustão, do Silvio Santos, as antigas Paniquetes, as participantes de reality shows, etc.), é preciso lembrar que muita coisa já mudou e permanece mudando. Os programas de beleza femininos, como o “Superbonita”, da GNT, já refletem a ideia de que a mulher não precisa seguir padrões, pode ser ela mesma”, avalia Maura Martins, jornalista e crítica de televisão do portal Escotilha.

Olhar masculino ainda é o filtro da programação

Na avaliação da roteirista e doutora em Estudos de Gênero no Cinema Fernanda Friedrich, o que acontece hoje na televisão é muito semelhante ao que acontecia nos anos 1980. Em sua tese ela analisou a representação feminina em séries e constatou que, entre os anos 2005 e 2015, das séries protagonizadas por homens, 50% tinham como temática o ambiente de trabalho; já entre as protagonizadas por mulheres, 44% focavam em aspectos de relacionamento amoroso. A tese foi transformada no livro "Uma série de mulheres engraçadas - as protagonistas das sitcons em 70 anos de mudanças dentro e fora das telas".

Para Friedrich, muito do que vemos na televisão decorre das relações de poder e isso vem desde sempre. “O homem detém o poder e ele objetifica a mulher como uma forma de fazer com que ela não tenha esse poder. Tudo vai ser filtrado pelo olhar masculino, porque como é ele que detém o poder, é o olhar dele que importa, é o que ele quiser (ver). E isso vai ser a degradação da mulher porque o homem vai responder aos desejos dele de ver uma mulher pelada e isso vai ser veiculado porque é o que agrada ao olhar dele, não quer dizer que ela não possa aparecer assim. Muitos teóricos explicam que isso é uma forma de desqualificar a mulher, atrelando-a a esse destino biológico. Ao associar que a mulher tem uma inferioridade física, social, intelectual, ela depende do corpo e do sexo para existir. Ela aparece nas narrativas para agradar o homem que está vendo aquilo e isso é que dá valor para ela, não é a parte intelectual. Isso é tão problemático porque se estende, é todo um reflexo desse patriarcado que faz questão de manter o poder onde ele está e não dividir esse poder e continuar subestimando e colocando para baixo a mulher.”

A roteirista acredita também que esse poder masculino se aproveitou do empoderamento feminino em seu favor. “Com elas dispostas a serem seres mais livres, o patriarcado se apropria disso. O fato de a mulher querer colocar um biquíni, ou querer se expor mais, faz com que o patriarcado resolva explorar isso. Vemos que aumentou muito, desde os anos 1970, a quantidade de exploração sexual de mulher em telas. O perfil da mulher na TV é uma imagem extremamente linda, maravilhosa, magra, loira, olhos azuis, em um país onde metade das pessoas são negras, onde muitos estão fora do peso. É fora do padrão e obriga as mulheres a se acharem inferiores porque elas não representam aquele padrão, aquela especificidade que tem nas telas”, critica.

Para a jornalista Maura Martins, mesmo com os erros e excessos, como o concurso promovido por Silvio Santos, as redes sociais deram mais voz para a população. "Hoje, ações como essa, com o empoderamento (para o bem ou para o mal) da população, não passam mais incólumes. Geram uma ‘gritaria’ virtual que as emissoras não conseguem mais ignorar e acabam, necessariamente, tendo que refletir sobre suas decisões.”

Mulheres podem ajudar a mudar imagem

Mudar a situação e acabar com a exploração feminina é algo que leva tempo e sobretudo exige a participação de toda a sociedade. A atitude de Phelippe causou comoção nas redes sociais e a #PhelippeExpulso ganhou o Twitter no sábado. A pressão sobre patrocinadores fez com que estes também pressionassem a emissora, que de uma forma ou outra, acabou acatando o que pedia o público. O problema, no entanto, está em todos os lugares, não só nos realities. Nos Estados Unidos recentemente uma jornalista foi beijada enquanto fazia uma transmissão ao vivo e denunciou formalmente seu abusador.

“É difícil dar uma previsão de até quando isso deve perdurar – uma vez que, como disse, acho que muita coisa já mudou. O respeito às mulheres na televisão é diretamente relacionado com o respeito às mulheres na vida cotidiana. Por isso mesmo, me parece que um dos locais em que a mulher é ainda muito desrespeitada é dentro do jornalismo de esporte, um território visto como masculino e a mulher como uma invasora. Ali a mulher é violada enquanto profissional e enquanto torcedora, principalmente de futebol, e desautorizada o tempo todo por estar naquele lugar”, pontua a jornalista Maura Martins.

Fernanda Friedrich destaca que a exploração é tão comum que até as meninas passam por isso, sem qualquer cuidado com sua idade. “Acho interessante dizer nisso tudo que a gente tem todo o direito de aparecer – e estou falando de mulheres, não de meninas -, da forma que a gente decide, mas na verdade, pelo consumismo, pelo mundo capitalista, e dentro desse patriarcado, a competição entre nós é estimulada. A mulher que vê uma coisa dessas não acha errado, afinal a menina está se preparando para ser a mais bonita. É aquele incentivo que algumas mães e pais dão para a filha. É um aspecto doentio de uma sociedade patriarcal e que leva esse tipo de atitude como algo compreensível porque faz parte, a menina só está mostrando como ela é bonita. Existe uma força para alienar as mulheres a só se preocuparem com isso e esquecerem o papel delas na sociedade, sem ser esse papel de ser bonita, de atrair, de ser reprodutora, de ser passiva ao homem”, critica.

Para Martins, é preciso uma atitude também dentro das emissoras, com mais mulheres protagonizando programas e obtendo lugar de fala. Para ela, um bom exemplo é Tatá Werneck. “Ela personifica uma mulher capaz de rir de si mesma, de mostrar-se sexualmente ativa, de 'desobjetificar' sua própria imagem e nos autorizar a falar de nós mesmas de uma maneira que não aborda, ao menos diretamente, a necessidade de agradar esteticamente o outro.”

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