Erva-mate paranaense busca os caminhos do vinho e café
Embrapa Florestas em parceria com universidade americana aprofunda estudos sensoriais da bebida para explorar pontos fortes, como sabor e aroma, e levar produto final a novo status para o consumidor
PUBLICAÇÃO
sábado, 22 de junho de 2019
Embrapa Florestas em parceria com universidade americana aprofunda estudos sensoriais da bebida para explorar pontos fortes, como sabor e aroma, e levar produto final a novo status para o consumidor
Victor Lopes - Grupo Folha 

Café e vinho são bebidas que encontraram, ao longo dos anos, um novo status gastronômico. Qualidades sensoriais, padronização e classificação da matéria-prima que colocaram, inclusive, os sistemas produtivos da uva e do café em outro patamar, agregando valor aos produtores e atendendo os consumidores de forma única. Imagine então que o chá-mate, elaborado com folhas de erva-mate (Ilex paraguariensis) – cujo Paraná é um dos maiores produtores do Brasil - também pudesse ser visto dessa forma pelo mercado? As propriedades benéficas da erva e seu sabor único são pontos fortes a serem explorados para aumentar o consumo e, claro, as exportações.
Com o objetivo de atender essa demanda do setor ervateiro do Estado, a pesquisadora da Embrapa Florestas, em Colombo (Região Metropolitana de Curitiba), Rossana Catie Bueno de Godoy está desenvolvendo atividades como cientista visitante no Sensory and Consumer Research Center, na Universidade do Kansas, Estados Unidos, com o objetivo de aprofundar os estudos sensoriais da bebida.
Para isso, foram levadas aos EUA 18 amostras de chá-mate dentre outros produtos comerciais e clones selecionados pela instituição de pesquisa. O primeiro passo do trabalho é o levantamento dos termos descritivos do perfil sensorial dos chás: “É como se fosse um dicionário, no qual consta a descrição dos principais atributos do chá-mate tanto para o sabor, quanto para o aroma. Usando como exemplo o aroma de madeira: se esse aroma é reconhecido pelos julgadores nas amostras, ele fará parte dos termos que descrevem o aroma do chá-mate. Isso também vale para os atributos de sabor”, explica.
A pesquisadora relata que hoje o chimarrão e o chá-mate continuam sendo comercializados de forma generalizada, ou seja, “a indústria ainda não fez esse trabalho de diferenciação para o consumidor”. “Não é possível criar uma fidelização do consumidor sem que o produto final seja subclassificado. Hoje, por exemplo, há diferentes tipos de cafés: expresso, gourmet, tradicional, extra forte, especial, descafeinado. Esse diferencial ajuda a direcionar o produto para um grupo específico de consumidores. Esses consumidores se identificam com o produto que lhes agrada e se tornam fieis porque a indústria viabilizou o produto em diferentes classes. Basta voltar o tempo há alguns anos atrás para se lembrar como o café era vendido.”
Entre outras contribuições do levantamento dos termos descritivos aos diversos segmentos da cadeia produtiva da erva-mate, a pesquisadora elenca a possibilidade de identificar qual a relação de determinadas práticas culturais com o sabor do produto final (para o setor primário), identificar qual a influência das variáveis de processo (tostagem) nas características sensoriais do chá mate (para ervateiras), a seleção de cultivares com base no seu perfil de aroma e sabor (para o melhoramento genético) e o estabelecimento de atributos sensoriais responsáveis pela proteção dos produtos com identidade geográfica (para programas de desenvolvimento regional).
“No meu retorno daremos continuidade na Embrapa Florestas para a implantação de um painel treinado como aqui na Universidade do Kansas. Esses julgadores treinados darão suporte às pesquisas da Embrapa Florestas na seleção de clones de erva-mate com melhor aceitação sensorial e também nos treinamentos que pretendemos oferecer às ervateiras, para que classifiquem os seus produtos finais.”
Por fim, a pesquisadora elenca alguns gargalos técnicos da cadeia do mate. “Observo grandes variações no produto final que podem ter origem na matéria-prima ou no processamento e embalagens de qualidade inferior que não retêm o aroma e o sabor do produto final. Isso é resultado de um trabalho que realizamos e publicamos em artigo científico. Também observo um distanciamento das expectativas do consumidor com os produtores agroindustriais. É preciso estreitar essa relação entre quem produz e quem consome.”

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