Entrando em uma propriedade rural de Uraí (Região Metropolitana de Londrina), que tem a produção de laranja como foco, logo se percebe a presença das famosas armadilhas amarelas, que servem para detectar a presença do psilídeo, inseto vetor da bactéria causadora do greening - ou huanglongbing (HLB). A preocupação com a doença não é à toa, já que não existe cura ou tratamento.

A propriedade pertence aos agricultores Riuji Sumiya, 81, e Vanda Sumiya, 69, que há 15 anos se aventuram na citricultura. Ela lembra que o plantio do seu primeiro pomar de laranja terminou na véspera de Natal de 2008, e que essa foi uma alternativa para deixar as culturas de grãos de lado.

“Fomos para o lado dos citros porque na época o grão estava inviável e nós, como pequenos produtores, ficava difícil. Fomos para outra alternativa, que era a laranja. E com isso tivemos nosso primeiro talhão, foi dando certo e nossa propriedade é 90% com citros”, conta Sumiya, que cita a necessidade de um cuidado integral com as plantas.

Como praticamente todos os citricultores, o casal Sumiya tem se mobilizado para enfrentar o greening dos citros. É um trabalho diário que demanda atenção, esforço e assistência técnica. “Tem que ficar em cima, tem que obedecer às ordens da agrônoma”, brinca Vanda, que ressalta que a doença “não é brincadeira”. “O greening entra bastante quando a planta está nova e começa os ‘brotinhos’ novos. A gente trabalha com a armadilha e com as podas e erradicação do limão-rosa, ou outro tipo de limão, e da murta, que é uma plantinha que os passarinhos adoram, mas é hospedeira do psilídeo.”

Riuji Sumiya confere a armadilha para controle do psilídeo, inseto vetor da bactéria causadora do greening
Riuji Sumiya confere a armadilha para controle do psilídeo, inseto vetor da bactéria causadora do greening | Foto: Sérgio Ranalli - Editor

A preocupação também é compartilhada pelo seu marido, que acredita que o HLB é, atualmente, o maior problema dos citricultores. “Não tem um produto que controla”, lamenta, citando que, mesmo com o uso de armadilhas e outras práticas, ainda “está tudo difícil”. “Quando pega greening, temos que erradicar a planta. Então, temos bastante falhas porque pegou o greening”.

"Estamos pelejando. A gente já mexeu com algodão e café, e por enquanto o que está dando mais resultado é a laranja”, brinca Sumiya, que não gosta de comer laranja no dia a dia. “De vez em quando, quando tem alguma laranja com problema, eu pego o canivete, experimento abrir e ver qual é o problema dentro.”

A FOLHA acompanhou a colheita em um dos talhões da propriedade dos agricultores, que estimam produzir cerca de 24 mil caixas de laranja por ano - produção destinada à Cooperativa Integrada, da qual fazem parte.

O gerente técnico da Cooperativa Integrada, Wellington Furlaneti, explica que existem diversas técnicas que ajudam a conter o avanço da doença.

“É muito importante que o citricultor busque técnicas preventivas para postergar a longevidade do seu pomar. O uso de mudas sadias, de um viveiro certificado, começa por aí. Desde a implantação do pomar, o uso de quebra ventos também é indispensável para evitar a vinda de pragas de outras áreas”, ressaltando ainda o uso de produtos químicos para controle do psilídeo; esse controle é importante porque a vida útil do pomar pode passar de 20 anos. "Não é uma cultura que se estabelece em um ano e no outro se reimplanta outra. Realmente, é preciso esse acompanhamento frequente para assegurar a produtividade ao longo dos anos.”

A cooperativa tem se mobilizado para conscientizar produtores e comunidades, visando conter o avanço da doença. Furlaneti aponta que os casos de greening têm aumentado no Paraná e que, apesar de a situação ser melhor que em São Paulo, não se pode baixar a guarda.

“Muitas dessas ações são para conscientizar a importância de se monitorar, acompanhar e contar com assistência técnica de qualidade para postergar ao máximo o avanço dessa doença nos nossos pomares”, diz.

Entre os cooperados da Integrada, são cerca de 2,5 milhões de caixas de laranja por ciclo (ou safra), que acabam indo direto para a indústria. O suco concentrado é exportado para mais de 40 países, incluindo a União Europeia.

“Esse é um pomar de meia-idade, muito bem conduzido. O cooperado tem seguido à risca o que o departamento técnico propõe. Tem boa sanidade, bom pegamento de frutos. Estamos fazendo uma colheita e vendo o que está por vir. Esse é o caminho: é conduzir de uma maneira realmente eficaz, procurando fazer o uso de tudo que tem de ferramenta”, completa o gerente técnico.

Uma das ações de conscientização é a campanha “Combate ao Greening: A Hora é Agora”, cujo foco são ações junto à comunidade e escolas, manejo externo nas propriedades e palestras informativas. A agrônoma Flávia Domingos explica que a campanha começou em Uraí, mas deve seguir para outros municípios produtores - Assaí, Cornélio Procópio e Londrina.

A ‘VESPINHA’ E O CONTROLE BIOLÓGICO

No laboratório de bacteriologia do IDR-Paraná (Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná), em Londrina, são produzidas mensalmente cerca de 150 mil tamaríxias (Tamaríxia radiata), que são parasitoides do psilídeo.

O projeto para a produção da vespinha, como é conhecida, começou em meados de 2016, com cerca de 25 mil unidades mensais; rapidamente esse número cresceu visando atender à demanda de empresas da região, como a Cooperativa Integrada.

O pesquisador Rui Leite, do IDR-Paraná, no laboratório que produz a vespinha: controle do greenning é vital para a sobrevivência da citricultura
O pesquisador Rui Leite, do IDR-Paraná, no laboratório que produz a vespinha: controle do greenning é vital para a sobrevivência da citricultura | Foto: Sérgio Ranalli - Editor

O pesquisador Rui Leite explica que esse controle biológico tem sido utilizado nos estados do Paraná e de São Paulo, além de países como Estados Unidos e México. A ideia é liberar as tamaríxias na mata nativa, em pomares domésticos, plantios abandonados e nas cidades - principalmente onde há plantas de murta, que são uma das principais hospedeiras da bactéria e do psilídeo.

“O problema do greening, ou HLB, surgiu no Brasil no início de 2004 e vem se agravando ao longo dos anos. Tem várias medidas de prevenção e controle, e uma delas é o controle biológico do inseto vetor da bactéria que causa o greening”, diz Leite, que explica que a tamaríxia “parasita as ninfas [forma jovem] do psilídeo e impede que haja reprodução do inseto”.

Segundo o pesquisador, não é possível produzir o inseto vetor em laboratório; o processo adotado no laboratório, então, é produzir a murta e nessa planta é produzido o psilídeo, que por sua vez é utilizado na produção das tamaríxias.

“O psilídeo faz a postura dos ovos; desses ovos nascem as ninfas do psilídeo, que são estágios intermediários entre o ovo até o inseto adulto. E nesses estágios intermediários a tamaríxia parasita a ninfa, fazendo a postura dos ovos. E aí, em vez de sair da ninfa um psilídeo adulto, vai sair a tamaríxia”, detalha Leite.

O manejo da doença tem mobilizado produtores, empresas e pesquisadores porque pode ter efeito devastador na citricultura. Leite cita o caso do estado da Flórida (EUA), que produzia cerca de 300 milhões de caixas de laranja por ano e, após o HLB, não produz mais que 16 milhões. “Ele exige adoção bastante rígida das ações de controle: eliminação das plantas doentes, plantio de mudas sadias e um controle efetivo do psilídeo. Se não forem adotadas pelos produtores, por todo o setor de forma rígida essas medidas, a doença vai se desenvolver com certeza."