Ampliação de vagas e escolas de Medicina divide opiniões
PUBLICAÇÃO
domingo, 02 de outubro de 2016
Magaléa Mazziotti 
A lista de mantenedoras de ensino superior autorizadas a abrir escolas ou ampliar vagas de cursos de Medicina no país, divulgada na última semana pelo Ministério da Educação (MEC), reacendeu uma série de questionamentos relacionados à qualidade da formação médica no Brasil, bem como toda a crise da saúde.
O Conselho Federal de Medicina (CFM) repudiou a ampliação de vagas, em uma nota elaborada em conjunto pelas 21 unidades regionais que integram a autarquia (http://www.crmpr.org.br/Manifestacao+a+sociedade+11+47294.shtml). Entretanto, tanto o MEC, quanto as instituições contempladas no Estado asseguram que a autorização foi dada após um rigoroso processo de habilitação e amparam o aumento de vagas na falta ou escassez de médicos em muitos municípios do País.
Na visão do presidente do Conselho Regional de Medicina do Paraná (CRM-PR), Luiz Ernesto Pujol, a autorização é considerada uma ameaça à qualidade do atendimento médico vigente. "Ninguém é contra a ampliação de vagas, mas com qualidade, o que é bastante duvidoso quando a autorização é dada antes da construção da estrutura mínima necessária a um curso de Medicina, que na visão do conselho requer corpo docente qualificado, laboratório de anatomia e hospital-escola."
Ainda segundo Pujol, o aprofundamento do estudo médico não pode ser dissociado da prática tanto da atenção básica quanto de situações limites, de alta complexidade, que o acadêmico de medicina só poderá vivenciar em um hospital desse tipo. "Da maneira como vem sendo feita a autorização de novos cursos, a estrutura é montada conforme a necessidade. E em Medicina, esse modelo representa riscos à sociedade que será atendida por um tipo de médico formado em condições frágeis no que envolve a prática médica", acrescenta.
Criador e responsável pelo site (www.escolasmedicas.com.br), o médico e professor aposentado pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), Antonio Celso Nunes Nassif, acredita que a decisão do MEC tenha tido fins políticos. "O anúncio veio dias antes do primeiro turno. Além disso, o investimento milionário que cada escola precisará fazer para abrir a turma irá gerar empregos e colocar o dinheiro em circulação, contribuindo para minimizar os efeitos da crise econômica nas regiões contempladas", observa.

Doutor em Medicina e com uma vasta experiência tanto no exercício da profissão quanto na docência, Nassif também condena a ampliação de vagas de maneira "irresponsável". "Há anos estão destruindo o ensino médico por razões que desconheço. Como professor e médico fico muito triste de estar em um país que aceita uma formação médica em instituições que não possuem material adequado, projeto pedagógico e o aprendizado se dá em bonecos simuladores, já que até cadáver se tornou item dispensável". Para ele, uma medida que poderia evitar o "caos anunciado" diante desse boom de cursos de Medicina, seria a exigência de um exame de proficiência para o exercício da profissão. "Só o diploma não pode dar o direito legal de tratar as pessoas sem o preparo necessário para lidar com vidas", argumenta.
O posicionamento contrário do CFM e os conselhos regionais já começa a mobilizar a classe. Na próxima semana Pujol e os demais integrantes das autarquias estaduais estarão em Brasília para tentar uma maneira de reverter essa decisão - o que precisa ocorrer até o dia 18 de outubro. Nessa data, as instituições que receberam a autorização do MEC para criar o novos cursos de Medicina deverão assinar o termo de compromisso de implantação do projeto, que passará a contar com um prazo de três a 18 meses para sua finalização. "Depois de assinado o termo, não tem como reverter", constata Pujol. "Também estamos buscando apoio de deputados e senadores para a criação de uma Frente Parlamentar que venha garantir força de voto na defesa de uma formação médica de qualidade", informa Pujol.


