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Folha 2
13/09/2017

LEITURA - A vastidão do infortúnio

'O Garoto do Riquixá', primeiro romance do escritor chinês Lao She publicado no Brasil, realiza um jornada pela e esperança e desilusão humana

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Reprodução - Lao She: diz a lenda que ele foi escolhido para receber o Nobel de Literatura de 1968, após várias tentativas de contato descobriram que ele havia morrido há dois anos
Lao She: diz a lenda que ele foi escolhido para receber o Nobel de Literatura de 1968, após várias tentativas de contato descobriram que ele havia morrido há dois anos


Suor. Muito suor. Suor escorrendo pelo rosto, pescoço, ombros, braços e pernas. Suor fruto do esforço. Suor originário do cansaço. Muito suor e toneladas de infortúnio. Muito suor e montanhas de sofrimento.
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O suor parece escorrer das páginas de "O Garoto do Riuixá", romance do escrito chinês Lao She (1899 – 1966), que acaba de ser lançado pela editora Estação Liberdade. Trata-se do primeiro livro de um dos autores mais populares da literatura chinesa do século 20 publicado no Brasil com tradução diretamente do chinês.
Escrita em 1936, a obra narra a história de Xiangzi, um jovem que ganha a vida como puxador de riquixá nas ruas de Beijing. Uma história carregada de infortúnio, pobreza, sofrimento e uma boa dose de azar.
Após a morte dos pais, o garoto abandona a zona rural com o sonho de viver na cidade grande. Se instalando em Beijing, passa a trabalhar como puxador de riquixá, uma atividade que exige apenas força e resistência física.
Xiangzi vive literalmente da mão para a boca. Trabalha de manhã para comer alguma coisa no almoço. Trabalha durante a tarde para mastigar qualquer coisa no jantar. Trabalha durante a noite para conseguir um lugar para dormir. Seu grande sonho é conseguir guardar algumas moedas para no futuro comprar seu próprio riquixá e não precisar mais trabalhar com riquixás alheios e alugados.
O rapaz passa por todo tipo de provação. Quando vislumbra alguma conquista se aproximando, algum acontecimento quebra suas pernas. Às duras penas se levanta para novamente aparecer algum fato que novamente quebre suas pernas. E assim sucessivamente, de drama em drama, de tragédia em tragédia, ele vai adquirindo uma pele grossa resistente às porradas e à miséria.
Dotado de uma determinação e uma persistência incomensurável, Xiangzi segue acreditando que, com o suor do próprio rosto, um dia terá uma vida melhor. Segue acreditando que trabalhando com honestidade, um dia terá seu lugar ao sol.
Com o passar dos anos, e após centenas de pernas quebras, o personagem entra numa desesperança colossal. Como um palhaço que perde o dom da graça e se transforma naquilo que mais odiava. Afogado no amargor oceânico, chega a uma síntese desconcertante: "Fácil um pobre morrer, e mais fácil ainda ser esquecido."
Como pano de fundo da dramática existência de Xiangzi, Lao She desenha um retrato da China pré-revolucionária. Uma época em que a população era dividida em apenas dois grupos: meia dúzia de milionários e uma multidão de miseráveis.
Lao She nasceu na cidade de Beijing, em 1899. Atuou como professor e diretor de escolas primárias de Beijing até a década de 1920, quando teve a oportunidade de viver uma temporada em Londres como professor de chinês. De volta ao seu país em 1929, passou a atuar como professor universitário. Em 1937 abandona o magistério para se dedicar exclusivamente à literatura.
Após a revolução comunista e a fundação da República Popular da China em 1949, Lao She passa a colaborar com a Revolução Cultural ganhando a distinção de "artista do povo". Na década de 1960 começa a ser perseguido pela Guarda Vermelha, acusado de tendências capitalistas. Depois de passar maus bocados nas mãos da polícia, comete suicídio em 24 de agosto de 1966.
Segundo a lenda, Lao She foi escolhido pela Academia Sueca para receber o Nobel de Literatura de 1968. Após várias tentativas de contato com o governo chinês, a comissão do prêmio descobriu que o escritor havia falecido dois anos antes.
Considerado um dos grandes escritores da literatura chinesa moderna, Lao She deixou 40 obras publicadas. Apesar de seus escritos permanecerem no limbo durante décadas, hoje seus livros fazem parte da leitura escolar obrigatória em toda a China.



Serviço:
"O Garoto do Riquixá"
Autor – Lao She
Editora – Estação Liberdade
Tradução – Márcia Schmaltz
Páginas – 336
Quanto – R$ 49

Nesse ramo, aqueles com menos de vinte anos – havia quem começasse com onze ou doze anos – dificilmente conseguiam se tornar puxadores elegantes, pois, muitas vezes se machucavam quando pequenos, prejudicando o desenvolvimento do corpo. Talvez puxassem a vida toda, sem chegar a nenhum lugar. A decadência fazia-se perceber nos puxadores acima de quarenta anos e que estavam no negócio havia oito ou dez: viviam sempre atrás dos colegas e sabiam que seus dias estavam contados, conscientes de que podiam a qualquer momento cair mortos no meio da rua durante uma corrida. A postura à frente do riquixá, a habilidade de negociar o preço e a malandragem de esticar a corrida eram feitos do passado, que lhes serviam apenas empinar o nariz perante os mais novos, mas de que nada adiantavam para diminuir a incerteza em relação ao futuro. Os jovens puxadores suspiravam enquanto sentiam o suor escorrendo pelo rosto. No entanto, em comparação aos puxadores acima dos quarenta anos, eles ainda estavam em uma situação mais confortável.
Essa categoria é formada por homens que, no passado, nunca se imaginavam puxadores, e só quando se encontravam no limiar da vida e da morte é que iniciavam a profissão – como policiais ou zeladores de escolas que foram demitidos, vendedores ambulantes ou artesões, que gastaram todas as suas economias e não tinham mais nada para vender ou penhorar. Gente que teve de retomar a vida, nesse negócio de morte, rangendo os dentes e engolindo as lágrimas. Esses sujeitos já haviam vendido o sangue de sua juventude e, a partir daquele momento, passavam a derramá-lo pelas ruas.

(Fragmento de "O Garoto do Riquixá", de Lao She)

Marcos Losnak
Especial para a Folha2
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