''Um dia, todos terão os seus 15 minutos de fama''. Ao contrário do que se possa imaginar, a frase foi dita pela Garota Sarada 2005, a bela Daniele Lopes, natural de Bela Vista do Paraíso, em uma entrevista à Folha nesta semana. Com esta expressão, a modelo parafraseou sem saber um dos maiores ícones e o fundador da cultura pop americana, Andy Warhol, que nunca imaginaria que hoje, quase 25 anos depois, o dito se confirmaria, como que numa espécie de profecia.
Nunca se produziu tantos ídolos e famosos como na atualidade e a explicação para este fenômeno contradiz muito do que se afirma sobre o potencial criativo da mídia. Hoje, (re)produz-se o que o povo quer ver e, segundo a avaliação do doutor em Cultura e Comunicação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, José Márcio Barros, para se manter na mídia basta apenas ter talento.
Tiazinha, Feiticeira, Roberto Jefferson, Soraya Garcia, Marcela do BBB, Emílio Zagaia, Ivo Pessoa e Daniele Lopes. Mesmo o maior alienado não pode negar que já tenha ouvido algum destes nomes por meio de um veículo de comunicação. Por motivos diferentes, todos estes personagens passaram por surtos de superexposição que os levaram à fama repentina.
Alguns tiveram a ligeireza de associar esta fama ao sucesso e ao talento artístico, conquistando merecido espaço na vida pública. Outros, usando de recursos midiáticos espetacularizados, mantiveram-se em exposição graças à necessidade da platéia por algo novo, teatralizado ou próximo da realidade das pessoas comuns. Parte deles, por simples falta de habilidade, caíram no esquecimento.
Não é preciso ir tão longe para encontrar celebridades fabricadas. Graças à iniciativa de grandes redes de televisão, que mantém pelo menos três destas fábricas, Londrina tornou-se celeiro de famosos em potencial. Quatro destas oportunidades se consumaram com nomes já citados: Marcela, Emílio, Ivo e mais recentemente Daniele. Quatro casos exemplares de consequências que os 15 minutos de fama podem gerar.
Ivo Pessoa talvez seja a celebridade produzida mais bem-sucedida da cidade. Concorreu com outros 27 mil candidatos à uma vaga no ''Fama'', da Rede Globo, do qual foi desclassificado nas semifinais. Enquanto vivia em Londrina, apenas tocava em bares e gravava jingles para propagandas.
Hoje mora no Rio de Janeiro, gravou a música-tema da novela das seis e trabalha na produção do próprio disco, que deve ser lançado em setembro. ''No meu caso, acho que a superexposição foi benéfica. Artista vive disso e se precisasse, faria tudo de novo'', afirma.
Já Daniele Lopes, segundo ela mesma, está em ascensão. Vencedora do concurso ''Garota Sarada 2005'', promovido pelo apresentador e humorista Tom Cavalcante, ela curte a transição entre o cargo de gerente nacional de franquias de uma agência de modelos e o estudo de várias propostas de trabalho que surgiram instantaneamente após sua aparição na televisão.
Inclusive para posar nua, o que pode acontecer em janeiro próximo. ''Busco minha independência financeira e estou curtindo muito esta fama. É muito bom ser reconhecida na rua, é gratificante'', afirma.
Os outros dois famosos londrinenses, por sua vez, parecem viver uma espécie de ''sina BBB''. Emílio Zagaia, participante da terceira edição do programa global, diz categoricamente que vê mais aspectos negativos do que positivos na rápida fama que conquistou. ''Já tive projetos recusados por produtoras de vídeo simplesmente por ser um ex-BBB'', admite.
O que mudou na vida dele? ''Era instrutor de mergulho na Tailândia e agora sou instrutor de mergulho em São Paulo, onde também tenho uma produtora. A vantagem é que estou perto da família e fiz grandes amigos'', afirma.
Marcela, ex-BBB 4, é uma incógnita. Depois de ter posado para a revista Sexy e ter participado de programas de TV, sumiu e permanece incomunicável há pelo menos duas semanas. A Folha tentou por duas semanas falar com a garota através de uma prima, um irmão e a própria mãe, mas não conseguiu. Atitude incomum para quem busca trabalhos de cunho artístico.
Os casos citados acima em especial, os de Daniele e Ivo expõem claramente os motivos para o nascimento das ''fábricas de celebridades''. Unindo a fome com a vontade de comer, a mídia aproveita-se da necessidade de exposição e ascensão social inerente às pessoas com a busca por alternativas de entretenimento mais próximas da realidade comum.
''As pessoas buscam reconhecimento social basicamente porque isto agrega valores positivos à elas'', afirma a especialista em estresse e distúrbios de ansiedade pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), Myrna Chagas Coelho. ''Hoje, o espaço na vida pública não está mais ligado a valores sociais, mas sim ao espaço na mídia'', completa José Márcio Barros.
E para quem acha que a mídia fabrica celebridades por pura necessidade, o doutor em comunicação e cultura pela UFRJ faz uma ressalva: ''A televisão não pode ser acusada de impor estes valores à sociedade porque só faz isso com base em pesquisas de opinião. Se as pessoas não podem ver elas mesmas na TV, elas querem ao menos reconhecer indivíduos próximos à realidade delas num ambiente que ainda guarda muito de magia.
O erro da mídia, segundo ele, consiste em reproduzir excessivamente estes comportamentos, o que pode gerar uma bola de neve de caráter extremamente negativo. ''Qualquer mudança drástica no modo de vida de uma pessoa, mesmo que positiva, gera estresse, e se este indivíduo não tiver um senso de valor próprio bem sedimentado, ela pode achar que a personalidade está ligada ao que ela conquistou - e que pode perder a qualquer momento - e não ao que ela de fato é'', conclui Myrna.

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