O estudante solitário
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quinta-feira, 01 de setembro de 2016
por Paulo Briguet 

Em algum lugar da cidade há um jovem. Trabalha o dia inteiro, estuda à noite, ajuda no sustento da família, anda de ônibus e come de marmita. Aos domingos, sempre vai à igreja. Leva uma vida simples.
A família deste jovem passa por dificuldades. A empresa em que o pai trabalhava fechou as portas no ano passado e desde então a casa vive o drama do desemprego. O momento mais triste, para o nosso amigo, é voltar para casa e encontrar o pai pensativo, fumando na cozinha, folheando pela enésima vez um jornal que quase já decorou de tanto reler. "Boa noite, filho." "Boa noite, pai."
A mãe está no quarto, rezando. Nunca se esquece de deixar alguma coisa para o filho na geladeira: um pedaço de bolo, um brigadeiro, um doce de figo.
O jovem sonha. Quer casar e ter filhos. Quem sabe, abrir uma empresa no bairro. Não precisa ser nada muito grande, não. Seu maior desejo é se tornar útil para os outros; ser alguém que faz o bem.
Na escola, ele não é muito popular. Alguns colegas de classe o chamam de coxinha, direitista, papa-hóstia; a maioria fica em silêncio. O bullying começou durante uma aula de geografia, quando ele caiu na besteira de dizer que gostaria de ser empresário. A partir daquele momento, o professor se tornou irônico. "Então o nosso colega quer virar um explorador dos trabalhadores, um detentor dos meios de produção?"
Naquela noite o jovem ganhou um apelido: Mais-Valia. "Vai ver ele anda lendo aquele reacionário que escreve no jornal", disse a garota de cabelo azul. E o pior é que ele lia mesmo.
Quando outro professor, o de história, descobriu que ele era cristão, passou uma aula inteira dissertando sobre "os milhões de mortos pela inquisição". Depois arrumou um jeito de falar sobre o golpe das elites e o Fora Temer. Terminou com um libelo contra o Bolsonaro e o Caiado.
Uma professora nunca dizia "bom dia", mas só "bom Dilma". Nas aulas, apresentava Che Guevara e Lula como heróis. Foi ela uma das principais organizadoras de um evento sobre diversidade, que teve striptease.
Há alguns dias, no entanto, outra professora, bem mais simpática, o procurou na saída da aula. Tinha um livro em mãos: "Poemas", de Rainer Maria Rilke. "Quando chegar em casa, leia o poema da página 33", disse ela.
Na cozinha, o jovem leu em voz alta para o pai:
Quem chora agora em algum lugar do mundo,
sem razão chora no mundo,
chora por mim.
Quem ri agora em algum lugar da noite,
sem razão se ri na noite,
ri-se de mim.
Quem anda agora em algum lugar do mundo,
sem razão anda no mundo,
vem para mim.
Quem morre agora em algum lugar do mundo,
sem razão morre no mundo,
olha para mim.
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