Em missão pela vida

Cirurgião conta a experiência vivenciada em ONG que trata pacientes com câncer no Haiti

Laís Taine - Grupo Folha
Laís Taine - Grupo Folha


 

"Foi uma colonização muito cruel", diz Phillipe Abreu, 31 (primeiro à esq.), graduado pela UFPR, que já participou de três expedições ao Haiti
"Foi uma colonização muito cruel", diz Phillipe Abreu, 31 (primeiro à esq.), graduado pela UFPR, que já participou de três expedições ao Haiti | Arquivo Pessoal
 



Quando o menino Phillipe pintava olhos, boca, nariz nos mais de 400 santos de gesso que produzia e vendia ao mês com a mãe, no interior de Minas Gerais, não imaginava que treinava uma habilidade que utiliza agora. Duas décadas depois, o médico cirurgião Phillipe Abreu, 31, graduado pela UFPR (Universidade Federal do Paraná) e especializado em oncologia pelo Hospital Erasto Gaertner, em Curitiba, usa a coordenação motora para operar, voluntariamente, pacientes com câncer no Haiti.


Filho de uma professora e um caminhoneiro - os pais se divorciaram quando ele tinha 5 anos –, Phillipe começou a trabalhar cedo para ajudar a mãe nas mais diversas atividades, como matar porco para vender e desenhar em santos de gesso. Como tudo era acompanhado por uma mãe exigente, na adolescência já falava inglês, o que permitia expandir os negócios. “Tinha um cara da Alemanha que sempre comprava meus santos. Eu ia em uma lan house, mandava e-mail para ele e enviava a peça. Eu achava ótimo”, ri.




Daí para se tornar médico foi preciso uma ajuda do destino. Aos 14 anos estava decidido trabalhar nos ares. “Eu tinha o sonho de ser piloto de avião. São João del-Rei (cidade de origem) fica do lado de Barbacena, onde tem uma escola preparatória. Eu fiz as provas e fiquei em primeiro lugar, mas aí falaram: ‘você usa óculos, nunca vai poder ser piloto’. Eu fiquei chateado”, conta.


Ser médico foi uma opção não tão recomendada por tios que já estavam na área. “Para ser bem sincero, eu só fui ter certeza da profissão quando estava no terceiro ano da faculdade. Foi no estágio no Erasto (hospital), que eu vi que a gente consegue realmente mudar a vida das pessoas”, afirma ele, que decidiu pela oncologia ao invés da escolha inicial pela psiquiatria.


CARREIRA


Mas como um menino que vendia santos em São João del-Rei foi parar na UFPR, em Curitiba? “Quando chegou a época do vestibular eu não tinha nenhum parente próximo em Belo Horizonte, então um tio-avô me convidou para morar com ele em Curitiba”, conta. Foi no último ano do ensino médio com a missão pessoal de ser aprovado no que para ele seria a única chance. “Era uma chance só. Quando eu passei na Federal... Foi indescritível, eu liguei para a minha mãe e ela lembra que eu disse: 'nunca mais eu pinto um santo na minha vida'”, ri hoje do próprio comentário.


Sensação que ele guarda na lista de bons momentos. “Vou te confessar, eu chorei muito três vezes na minha vida profissional”, confidencia. A primeira delas foi ter passado naquele vestibular. A segunda, após a residência em cirurgia em São Paulo, ter sido convocado na especialização de oncologia no hospital que mostrou sua verdadeira vocação. A terceira, nas últimas semanas, quando recebeu o convite para uma nova especialização em transplante em Miami.


Conquista que veio com dedicação e relação com os profissionais no estágio seletivo em Miami durante o último ano de faculdade. Enquanto estudava em Curitiba, Phillipe apitava jogo de futebol amador na capital paranaense. Três jogos seguidos no sábado, três no domingo. “Eram R$ 400 por final de semana”. Com esse dinheiro, pagou as despesas durante os cinco meses nos Estados Unidos. Foi desse empenho que também saiu a indicação para um pós-doutorado em Toronto, onde atua hoje com a esposa, também médica.


ONG


“Quando fui para Miami, aluguei o apartamento de um professor da faculdade”,  conta. Este professor era pai de Vincent Degennaro, um médico idealista, diretor e fundador da ONG IHI (Innovating Health International - www.innovatinghealthinternational.org), que promove prevenção e tratamento oncológico no Haiti, país que sofre com a pobreza e desastres naturais. O encontro foi certeiro. Hoje ele atua como consultor internacional e já participou de três expedições - a primeira foi no ano passado.


A ONG tem cinco anos e, além das missões a cada três ou quatro meses, também ensina profissionais na capital Porto Príncipe, para que o tratamento se torne sustentável. O médico conta orgulhoso como dois cirurgiões que ele treina estão conseguindo operar com independência em um país em que a cirurgia é a salvação. “Sem nenhuma máquina de radioterapia no país, a cirurgia torna-se a única chance de cura para a maioria dos pacientes”, escreveu em uma carta.


Phillipe conta as diferenças do trabalho. “O tratamento oncológico nesses países sem recurso tem que ser adequado, individualizado, não pode ser a mesma coisa que a gente faz em qualquer lugar”, defende. Como exemplo, conta a história de uma mulher que não tinha como lavar a ferida, já infeccionada, por falta de água. A solução foi distribuir iodo. “Qualquer médico vai dizer que eu estou louco, porque o iodo atrasa a cicatrização, mas entre o iodo e o pus, eu fico com o iodo”, afirma. “É um negócio muito além de qualquer aperto que eu já tenha passado, que eu possa reclamar, é um negócio muito forte. É falta de comida, falta de água”, conta.


REALIDADE


Conhecer a realidade da população é fundamental para o tratamento, por isso o médico conta o que aprendeu com os moradores. “A história do Haiti é muito triste, é um reservatório de escravos”, menciona, informando que as navegações traziam os negros da África até o local, levavam os adultos até a América do Norte, deixando as crianças órfãs. Quando elas cresciam, voltavam para buscá-las. “Isso não está nos livros, você descobre conversando com a população”, menciona. “Foi uma colonização muito cruel, porque se você olha do outro lado está Punta Cana, que é exatamente a mesma ilha, só que colonizada por países diferentes.”


Como se não bastasse a questão social e política, o Haiti ainda sofre com os desastres naturais, como furacões e terremotos. “É uma população que 25% está vivendo abaixo da linha da extrema pobreza, mais ou menos com R$ 5 por dia. E outros 50% abaixo da linha da pobreza, com R$ 10. Ou seja, 75% da população é muito pobre”, menciona, lembrando ter sentido muito com a cena de uma pessoa revirando lixo, disputando comida entre porcos e bodes. “O ser humano lá está reduzido a uma categoria de animal mesmo”, lamenta.


Se para as pessoas saudáveis é desumano, o que seria para os doentes? “Se eu falar de câncer de estômago, o que acontece com os pacientes lá? Eles morrem, porque não tem endoscopia, eles nem ficam sabendo.” O médico recorda a última viagem em que uma mulher com câncer de mama sofria isolamento por ter uma ferida em grau avançado. “A família falou que era urgente, porque não conseguia ficar perto dela por conta do cheiro. Se você me falar que eu estou curando esse câncer, eu sei que não. É avançado e não tem cura. Eu sei disso. Então, para dar dignidade para o fim da vida dela, a gente tem que operar. O câncer tem essa característica de que não é a pessoa que está doente, é a família inteira”, revela.


FUTURO




Com a nova especialização em Miami, Phillipe pretende unir os conhecimentos em transplante com a oncologia. É sua aposta. “Acho que é uma oportunidade que eu estou tendo de realmente sair na frente e fazer uma coisa inovadora no mundo”, anima-se. O trabalho na ONG continua, já se tornou uma missão de vida. “A gente sempre tem que lembrar de onde a gente veio e o que a gente é para saber para onde a gente vai de forma adequada. Acho que independentemente de onde eu estiver, vou estar fazendo com a mesma vontade que eu tenho hoje”, finaliza.

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