FERIDA ABERTA -

Um novo olhar para uma antiga dor

O jornalista maringaense Laurentino Gomes lança trilogia sobre a escravidão, com um olhar atento sobre o tema, através de texto recheado de curiosidades e crítica

Pedro Moraes - Grupo Folha
Pedro Moraes - Grupo Folha

Traço marcante da identidade nacional, a cultura africana foi introduzida à força no Brasil. Fruto de mais de três séculos de exploração, a mão de obra negra ergueu a riqueza do período colonial e foi a engrenagem fundamental no estabelecimento nacional no período pós-independência. Hoje, o sofrimento causado pelo trabalho cativo permanece ecoando pelo País, que continua imerso de desigualdade. Os terríveis navios negreiros e as relações entre os diferentes estratos sociais à época da colônia foram romanceados pela literatura e pelo audiovisual, mas a realidade com toda certeza foi mais árida. Com o desejo de trazer à luz uma nova narrativa sobre o tema, o jornalista e escritor maringaense Laurentino Gomes – autor dos best-sellers “1808”, “1822” e “1889” – se envereda numa nova trilogia com o lançamento de “Escravidão: do primeiro leilão de cativos em Portugal até a morte de Zumbi dos Palmares – Volume I”, da Globo Livros.

 

Um novo olhar para uma antiga dor
Ilan Pellenberg/Framephoto/Estadão Conteúdo
 


Com escrita jornalística de fácil compreensão, rica em detalhes pitorescos, o autor relata em 480 páginas, divididas em 30 capítulos, o período de 251 anos, entre 1444 e 1695, marcados pelos fatos descritos no título da obra. Em outros dois volumes que serão lançados nos próximos dois anos, Gomes ainda tratará de todo o ciclo econômico colonial, passando pela Lei Áurea, até as consequências da libertação dos escravos. “A escravidão é um assunto muito sensível, mas não é um tema de propriedade de ninguém. Deveria ser preocupação de todos os brasileiros independentemente da cor da pele ou da condição social”, define o autor, que autografa o novo título, em Londrina, na terça-feira (17), e em Maringá, na quarta-feira (18), nas Livrarias Curitiba. Em entrevista à FOLHA, ele fala sobre a escravidão e suas consequências no País ainda hoje.




De que forma o projeto de “Escravidão” surgiu?

Foi uma decorrência natural da pesquisa dos três primeiros livros. Quando publiquei o “1808”, percebi que havia um tema muito importante para uma futura obra e isso foi se confirmando. Ao tentar explicar o Brasil do fim do período colonial, na época da chegada da corte, percebi que a escravidão era o grande assunto. Isso se consolidou na Independência, quando o Brasil rompeu os vínculos com Portugal, mas manteve a estrutura social vigente e a escravidão. A elite escravista brasileira fez um pacto no qual apoiou o herdeiro da coroa de Portugal, o príncipe Dom Pedro, em troca de que nada mudaria. Na República, houve a confirmação definitiva, ou seja, o pacto que tinha nascido em 1822 desmorona em 1888, com a Lei Áurea. Decidi escrever essa obra porque não há como entender o País no passado, hoje e nem o que vamos ver daqui pra frente sem estudar nossas raízes africanas. Há um legado da escravidão que continua vivo, muito mal resolvido e é preciso insistir sobre ele.


Quais são as marcas mais fortes deste legado?

Quando se observa os indicadores socioeconômicos brasileiros, seja renda, moradia, saúde, educação, população carcerária, bairros com maior índice de criminalidade, a direção das empresas ou o corpo docente das universidades. Há um abismo de oportunidades entre a população branca, de origem europeia, e a população negra, de origem africana. Quando a gente fala em desigualdade social no Brasil, nós estamos falando basicamente de herança da escravidão.


O senhor acredita que as políticas de reparação, como as cotas, são eficientes?

É a primeira vez que o Brasil começa a refletir sobre o tema seriamente e a tomar medidas concretas. Como investimento no futuro é fundamental. Agora, eu, pessoalmente, não acredito em pagamento de dívida histórica. A história é muito injusta e violenta, e passivos históricos são impagáveis. Acho inclusive que se ficarmos insistindo muito em reparação e comissão da verdade, pode ocorrer um acirramento dos preconceitos que estão instalados na sociedade brasileira. No entanto, o Brasil só vai ser um país decente no futuro se a gente corrigir as desigualdades sociais.


Seus outros livros são marcados por histórias pitorescas sobre os fatos do nosso passado. Em “Escravidão”, isso também é possível?

Preciso abordar o assunto com um pouco mais de circunspecção porque ele é muito pesado – como uma ferida aberta que não cicatrizou. Agora, a linguagem no livro é a mesma das obras anteriores. Há muita coisa curiosa e detalhes que as pessoas desconhecem. Por exemplo: a própria palavra escravo, ou “slave” em inglês, vem de eslavo, um povo branco de olhos azuis que foi escravizado aos milhões no Leste da Europa. Outra é uma das formas de escravidão mais valorizadas antigamente: o eunuco. Homens que eram castrados na adolescência e ocupavam postos importantes na administração pública. De cada dez adolescentes, nove morriam durante a cirurgia ou em decorrência dela. Era uma coisa chocante. São informações pitorescas, mas também são muito doloridas.


Esses outros casos de escravidão também causaram prejuízos aos países, como os deixados no Brasil pela escravização africana?

Diria que em todo o mundo. Hoje, do ponto de vista jurídico, nenhum país admite a compra e a venda de pessoas, mas na prática a escravidão continua. Existe uma sociedade em Londres chamada Anti Slavery Society, que é herdeira do movimento abolicionista no século 13, que monitora quantas pessoas existem no mundo submetidas a condições análogas à escravidão. São cerca de 40 milhões de pessoas, ou seja, quatro vezes mais que o número de cativos africanos que vieram para a América durante 350 anos. Mesmo a escravidão tradicional só acabou na Mauritânia em 2007, há apenas 12 anos. Recentemente, ainda havia na Arábia Saudita, no Sudão, na Líbia. Até arriscaria dizer que, se tivéssemos uma grande crise tecnológica e ambiental, muito provavelmente a escravidão voltaria.


O fato de você ser branco foi uma preocupação ao escrever sobre escravidão?

A escravidão é um assunto muito sensível, mas não é um tema de propriedade de ninguém. Deveria ser preocupação de todos os brasileiros independentemente da cor da pele ou da condição social. Acredito que existem olhares diferentes. Tem o olhar negro, o do branco e um no qual procuro me enquadrar, que é o olhar atento. Observo as diferentes narrativas e interpretações e busco fazer uma síntese. Eu, como um homem branco, descendente de italianos, nunca passei pela experiência da dor e do sofrimento do olhar negro, mas posso ser transparente, explicar isso aos leitores e, principalmente, conhecer com muito respeito as diferentes interpretações e narrativas de cada olhar.


Como o livro tem sido recebido pelos grupos negros?

O retorno tem sido o melhor possível, mas estou muito atento em como as pessoas interpretam minha narrativa, minhas observações e conclusões. O que me encanta na disciplina de História é que não deveria existir uma história oficial, pronta, acabada e definitiva. A história permite muitas narrativas, interpretações, até contraditórias. Ou seja, a história é um edifício em que a construção nunca acaba. Por isso, que uso na quarta capa do meu primeiro volume um artigo indefinido: “uma história da escravidão no Brasil”. É uma de muitas narrativas de possíveis interpretações.


Existe algum traço da escravidão que ainda hoje pode ser observado no Paraná?

Tem uma história muito interessante sobre o Paraná, que soube pela escritora Etel Frota, minha colega na Academia Paranaense de Letras. Ela relatou que, até meados do século 19, 48% da população do Paraná era negra. E aí, num projeto que a elite daquela época tinha de branqueamento da população, o Paraná atraiu milhares e milhares de europeus brancos – russos, poloneses, ucranianos, italianos, alemães – e mudou o equilíbrio demográfico. Aquela população que era pequeninha hoje é majoritariamente branca. O Paraná é o exemplo do triunfo do processo de branqueamento da população brasileira, que era um projeto que foi muito discutido na imprensa e no parlamento, durante os anos que antecederam a Lei Áurea, em 1888.


Das experiências em suas viagens pela África, o que foi mais marcante?

Foi um mergulho em uma realidade sobre a qual eu conhecia muito pouco. O Brasil tem uma raiz africana muito forte, talvez o elemento de formação da identidade nacional mais importante. No entanto, a gente sabe muito pouco sobre a África, sobretudo de como está hoje. Fiz cinco viagens para oito países e conheci um continente em que as pessoas adoram o Brasil, nos recebem de braços abertos e sorridentes. Continua sendo muito pobre, mas vive um choque de modernidade. Angola tem prédios muito modernos, em que convivem lado a lado com favelas terríveis. Há ainda algumas regiões que estão se transformando em gigantescos lixões industriais, com descarte de carros e baterias usadas em todo o mundo. É bastante chocante. Mas, o que mais chamou minha atenção é que lá, embora eles estudem, a escravidão não é um tema tão pesado. Pelo simples fato de que quem ficou lá não sofreu as dores de quem veio. Não existe esse clima de ajuste de contas que temos no Brasil e nos EUA.


E qual será o próximo projeto depois do fim da trilogia sobre a escravidão?

Tenho que escrever os outros dois livros, o que é muito trabalho pela frente. Às vezes, dá até medo de não conseguir terminar, mas há assuntos que me fascinam muito. Tem uma história paranaense que está até hoje mal contada que é a Guerra do Contestado. Tão importante e interessante como Canudos. Quem sabe, se Deus me der vida e energia, eu possa trabalhar sobre isso.


Continue lendo


Últimas notícias