Sociedade Brasileira de Imunizações alerta para a importância da vacinação contra o sarampo

Retrocesso na saúde

Viviani Costa - Grupo Folha
Viviani Costa - Grupo Folha

No momento em que as atenções se voltam para o coronavírus, o Brasil já confirmou 338 casos de sarampo até a segunda semana de fevereiro. Oito estados diagnosticaram pessoas infectadas pelo vírus em 2020: São Paulo (136), Rio de Janeiro (93), Paraná (64), Santa Catarina (22), Rio Grande do Sul (11), Pernambuco (7), Pará (4) e Alagoas (1). Minas Gerais e Bahia também apresentam circulação ativa do vírus, de acordo com o Ministério da Saúde.

Sociedade Brasileira de Imunizações alerta para a importância da vacinação contra o sarampo
Casanowe/iStock
 

 

Ao menos duas mortes foram confirmadas neste ano: uma no Rio de Janeiro e outra em São Paulo. Na semana em que uma bebê de 5 meses também morreu em Rondônia em decorrência da doença, conforme a Agevisa (Agência Estadual de Vigilância em Saúde), o pediatra e presidente da SBIm (Sociedade Brasileira de Imunizações), Juarez Cunha, reforça a importância da vacinação.



Cunha ressalta que uma pessoa contaminada pelo vírus do sarampo, por exemplo, pode transmitir a doença para outras 20, enquanto um paciente diagnosticado com coronavírus contamina de duas a três pessoas.

A terceira etapa da Campanha Nacional de Vacinação contra o Sarampo termina na próxima sexta-feira (13) e é voltada para crianças e adolescentes entre 5 e 19 anos. Conforme o Ministério da Saúde, 28,7 mil pessoas receberam as doses até o dia 2 de março. A meta é imunizar 3 milhões. No Paraná, todas as pessoas com idade entre 5 e 59 anos estão sendo vacinadas nesta etapa da campanha.

A existência de grupos antivacina é um dos principais motivos para a queda expressiva nos índices de imunização?

Para a Sociedade Brasileira de Imunizações e para o Ministério da Saúde, a expectativa sempre é que se consiga atingir o máximo de cobertura vacinal possível e atingir números que a gente considera que podem dar não só a proteção individual a quem foi vacinado, mas da coletividade. Se eu conseguir a cobertura de 95%, que significa que de cada 100 pessoas eu conseguiria vacinar 95 delas, se um vírus circula naquele ambiente, a chance de que as outras cinco não vacinadas tenham a doença é muito menor. O sarampo, por exemplo, é uma doença altamente contagiosa. Uma pessoa pode contaminar outras 20. No caso do coronavírus, uma pessoa pode infectar de duas a três.

Em relação aos grupos antivacinas, o sarampo é um exemplo muito sério e dramático do que aconteceu com as nossas coberturas vacinais. De 2019 para cá, nós tivemos mais de 18 mil casos e 16 óbitos. É uma doença que em 2019 e 2020 se localiza mais na região Sudeste, mais especificamente em São Paulo, mas que se espalhou para todos os estados do país. Uma doença que a gente tinha um certificado de eliminação emitido pela Organização Mundial de Saúde em 2016. Era uma doença controlada, eliminada e que a gente tem um retorno com essa gravidade.

No Brasil, esses grupos representam um dos motivos que contribuem para as baixas coberturas e isso leva ao retorno de doenças. Nós não podemos voltar atrás. Esse retrocesso do sarampo foram 50 anos de combate à doença que em dois anos a gente perdeu. A gente sabe que algumas pessoas, algumas crianças não podem tomar a vacina por determinadas situações, em especial, de saúde e a estratégia até para a gente proteger essa pessoa que não toma a vacina é vacinar as outras.

Qual o impacto das fake news para as campanhas?

Nós fizemos um estudo que revelou que sete a cada dez brasileiros acreditam em alguma informação falsa relacionada à vacina. Agora, com o coronavírus, o impacto das fake news é muito maior. Em qualquer setor: na saúde, na política, na economia, as fake news atrapalham. Independente da área, as mentiras podem ser compartilhadas e podem viralizar muito rápido. Agora há pessoas prometendo a cura com determinado tipo de óleo, pílulas que poderiam levar à cura do coronavírus, notícias falsas sobre a morte de pessoas, enfim. Isso tudo tem atrapalhado muito as coberturas vacinais. Nesses quase 50 anos do Programa Nacional de Imunizações nós evoluímos de um calendário que tinha só as vacinas de BCG, pólio, tríplice (caxumba, rubéola e sarampo) para um calendário com quase 20 vacinas. Isso é maravilhoso. Ao mesmo tempo, é um calendário complexo, difícil de ser mantido e que depende também da educação dos pais.

Como está o cenário político de incentivo a novas pesquisas para o setor de imunização?

O sucesso do Programa Nacional de Imunizações reflete toda a sociedade científica e de pesquisadores que têm contribuído no decorrer desses quase 50 anos não só para a ciência do nosso país, mas também com o comprometimento e informação para vários outros países do mundo. Nós somos o país que mais produz a vacina contra febre amarela e que mais tem artigos publicados também. É um momento mais difícil porque nem sempre a parte de ensino nas instituições públicas é valorizada como a gente gostaria, isso também é mais um motivo para a gente ter consequências no futuro que devem impactar no programa, na cobertura vacinal e em outros setores. A nossa rede de saúde tem sofrido muito, o nosso desafio é maior pelo quadro epidemiológico que a gente tem com o atendimento sobrecarregado com dengue, sarampo e tudo isso. O custo de um caso de sarampo com tudo que você tem que mobilizar em termos da rede de saúde para fazer bloqueio e uma série de ações para tentar evitar o aumento de casos é absurdo.

Com os primeiros casos de coronavírus registrados no Brasil, o Ministério da Saúde anunciou a antecipação da campanha de vacinação contra a gripe para o dia 23 de março. Quais os benefícios dessa decisão, se houver a adesão esperada?

Historicamente, as campanhas sempre foram realizadas no mês de abril. Muitas vezes, os estados da região Sul solicitavam a antecipação da data até porque a epidemiologia é diferente das demais regiões do país. Esse ano, o que tem de gravidade é essa epidemia de coronavírus. A vacina contra a gripe é específica para a gripe, mas, como os sintomas são parecidos, se for possível, através da vacina diminuir a ocorrência de quadros respiratórios, isso vai facilitar o momento do diagnóstico.

Quando tem uma situação mais grave acontecendo, as pessoas procuram as vacinas. É impressionante o que as pessoas têm procurado as doses contra a gripe, mesmo a gente fazendo uma nota de esclarecimento que as vacinas contra a gripe e as vacinas pneumocócicas não protegem contra o coronavírus. Tem o lado bom que acho que vamos conseguir as coberturas muito rapidamente na campanha contra a gripe deste ano, diferente dos anos anteriores em que a campanha teve que ser prorrogada várias vezes.

Vacinas contra outros tipos de doenças respiratórias também são indicadas nesse período?

As vacinas que protegem contra o pneumococos fazem parte da rotina da infância. A vacina Pneumocócica 10 (VPC 10) é aplicada aos dois, aos quatro meses e tem reforço depois de um ano de idade. Na sociedade científica, a gente acaba recomendando uma vacina chamada Pneumo 13 (VPC 13) que amplia a proteção. Aí, a gente vê quem são os grupos mais vulneráveis: crianças e idosos. Essas vacinas que protegem contra infecções respiratórias, tanto virais como a da gripe quanto bacterianas com certeza são vacinas que as pessoas têm que ter conforme o preconizado nos calendários. A da gripe vai estar disponível para crianças, idosos, pessoas com comorbidade e profissionais da saúde que são grupos que apresentam maior risco para a doença. As vacinas são seguras e são eficazes. Quando uma vacina entra para o calendário do Programa Nacional de Imunizações elas têm que obrigatoriamente ter passado por toda uma fase de pesquisa clínica antes para se mostrar segura e eficaz. Todas as vacinas que a gente têm disponíveis são vacinas seguras, mas não significa que não possam causar eventos adversos.

Como estão as pesquisas para a vacina contra o coronavírus?

Todas as vacinas que a gente tem nos nossos programas, mesmo as que a gente utiliza na rede privada, são vacinas que levaram, no mínimo, dez anos entre descobrimento, pesquisa e utilização. Nessas situações de surtos, epidemias e pandemias, o que acontece de diferente é que tudo se desenvolve muito mais rápido. Para coronavírus, tem três vacinas que estão em fase de pesquisa e parece que tem umas oito candidatas a serem colocadas em pesquisa. Mas nada disso vai acontecer a curto prazo. O que a gente imagina é que demore, no mínimo, de um a dois anos para a gente ter uma vacina candidata que seja segura e eficaz e depois disso ainda vai ter toda a logística de produção, de custo e de distribuição. Acho que nós não podemos trabalhar a curto e médio prazo pensando em vacinas para coronavírus.

Temos que, nesse primeiro momento, seguir aquelas regras gerais das doenças respiratórias que é lavar as mãos com água e sabão com bastante frequência ou passar álcool em gel. A pessoa que estiver com quadro respiratório obedecer o que a gente chama de etiqueta respiratória que é tossir ou espirrar na manga porque o ar sai em uma velocidade muito grande quando se espirra ou tosse. É preciso colocar uma barreira ali para diminuir a circulação daquele vírus. Uma pessoa que tosse e espirra em um ambiente pode contaminar todos ao redor. Uma pessoa passa a mão na maçaneta, chama o elevador e já contamina o dedo. Depois vai coçar o olho e pronto, já é uma forma das pessoas irem se contaminando com o vírus.

Temos que chamar a atenção para isso: é preciso ficar em ambientes arejados, evitar aglomerações, lavar as mãos, são coisas simples que a gente pode fazer no nosso dia a dia e que podem minimizar a quantidade de transmissão de coronavírus.



O tratamento efetivo para o coronavírus também é outra linha de pesquisa. Vários medicamentos estão sendo testados, mas até o momento não se tem nada específico. Enquanto isso, temos que fazer o que cabe a nós, seguir o calendário vacinal e pensar em outros casos mais próximos que o coronavírus. Hoje nós temos 19 mil casos de sarampo e 16 óbitos. Câncer de colo de útero mata 5 mil mulheres por ano no Brasil tendo uma vacina que evita isso que é disponível gratuitamente para meninas dos 9 aos 14 e para os meninos dos 11 aos 14. Há uma série de vacinas que as pessoas acabam deixando de fazer sem se dar conta da gravidade dessas doenças.

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