Reaproveitamento de rejeitos é alternativa a barragens

Professor do Departamento de Engenharia de Minas da UFMG analisa cenário um ano após tragédia em Brumadinho

Viviani Costa - Grupo Folha
Viviani Costa - Grupo Folha

As mais de 250 mortes ocasionadas pelo rompimento da barragem no Córrego do Feijão, em Brumadinho (MG), geraram comoção e um plano de ações ainda distante da realidade. A avaliação é do professor do Departamento de Engenharia de Minas da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), Evandro Moraes da Gama.


Área destruída no Parque da Cachoeira, em Brumadinho, me 7 de janeiro deste ano
Área destruída no Parque da Cachoeira, em Brumadinho, me 7 de janeiro deste ano | Douglas Magno/AFP
 


A falta de especialistas para fiscalizar as mais de 800 barragens de mineração espalhadas pelo País acarreta insegurança, em especial, para as comunidades que vivem no entorno das obras. Em 25 de janeiro do ano passado, data da tragédia, apenas oito técnicos faziam parte da recém-instalada Agência Nacional de Mineração. Segundo informações do próprio órgão, atualmente, 13 funcionários realizam as vistorias.



Indicação de rotas de fuga nas proximidades de barragem em Minas Gerais
Indicação de rotas de fuga nas proximidades de barragem em Minas Gerais | Douglas Magno/AFP
 


O Ministério Público de Minas Gerais denunciou, na última semana, 16 pessoas por homicídio doloso duplamente qualificado. Conforme a investigação, foram 9,7 milhões de metros cúbicos de rejeito de mineração despejados no meio ambiente. Para a Vale, ainda é "prematuro apontar assunção de risco consciente para provocar uma deliberada ruptura da barragem". A empresa ressalta que tem atuado no atendimento às pessoas (pagamento de indenizações e apoio psicossocial), na busca pelos desaparecidos e em projetos futuros de recuperação do meio ambiente e alternativas seguras ao uso das barragens. Porém, para o professor, mudanças no setor de mineração dependem principalmente de ações governamentais.


O que mudou um ano após a tragédia em Brumadinho?

O rompimento da barragem provocou, na engenharia nacional e internacional, interrogações que a gente ainda não consegue responder. A Vale publicou um laudo técnico [em dezembro do ano passado] e a conclusão em si foi que a barragem rompeu por liquefação. É um fenômeno que a gente não conhece ainda na mecânica dos solos. Por esse fenômeno, os solos se transformam de gelatina em água. Os motivos a gente até conhece alguns, mas não sabe o gatilho, o que provoca isso realmente. Isso é objeto de estudo no mundo inteiro.

Todos nós continuamos estudando como se chegar a esse fenômeno e como prevê-lo. O fenômeno é o produto de uma série de erros de engenharia que aconteceram. Da manutenção da barragem até os projetos de segurança.

Diante desse cenário, a Vale colocou sirenes em várias cidades. A população escuta sirenes, tem rotas de fugas e uma série de privações que tornou bastante dolorosa a vida de quem está perto de barragens. Se uma delas se romper, por exemplo, atinge a área oeste de Belo Horizonte.

Arrumar uma zona de fuga em que a pessoa é capaz de sair da casa dela e correr 1 km em dois minutos... E quem é cadeirante? Quem é mais velho? Quem tem uma criança? Como é que faz isso? Você passa dentro das cidades no entorno de Belo Horizonte e vê rotas de escape para todo o lado.

As barragens são monitoradas e não se tem laudo técnico em segurança. As equipes de geotecnia não têm condição de assegurar a estabilidade da barragem a não ser no dia que elas vão até lá e fazem as avaliações. Isso torna a condição bastante insegura.

A Agência Nacional de Mineração faz um esforço danado com dois ou três funcionários ou com 13 funcionários no Brasil inteiro para fiscalizar a quantidade de barragens que tem em Minas Gerais. Tem barragem em Minas Gerais com 240 hectares de área, quase um terço do Triângulo Mineiro.

Com o desmonte da ciência no Brasil, que é premeditado, se contar a quantidade de geotécnicos que nós temos, ela não cobre todas as barragens. A formação de um geotécnico é após mestrado e doutorado. Demora, no mínimo, nove anos para que o profissional chegue a ter uma capacitação para analisar a estabilidade de uma barragem com todos os problemas que ela tem. É uma situação bastante drástica.


Como estão os estudos sobre o processo de reparação de danos no local?

A gente tem visto a empresa tomar decisões, mas é uma coisa muito interna. A empresa não dialoga com a sociedade científica ou com a engenharia nacional. Não é um processo transparente. Após um acidente como esse, empresas mundiais acabam postando tudo com transparência e trocando informações com o mundo científico para tentar entender tudo isso.

Por outro lado, a UFMG [Universidade Federal de Minas Gerais] foi chamada pelo Ministério Público para ajudar na elaboração dos estudos para que, no mínimo, possam ser confrontadas ou mesmo melhoradas as ações da empresa. Por enquanto, ela fez o acidente, ela deu a solução e o poder econômico dela é muito forte para um Brasil muito fraco.

Mas a universidade foi chamada e professores que já estudam o caso de Mariana (MG) participam do grupo. Agora começou a ser coletada uma amostragem para ver como está a segurança do rio Paraopeba e como está o local atingido. A Vale também contratou consultorias independentes para fazer análises, mas ainda é uma fase muito preliminar, com muitas contradições nos resultados que apresentam. O fato é que a ONU (Organização das Nações Unidas) tem uma recomendação de que as barragens deveriam ser extintas.


De que forma poderia ser feito esse processo de remoção das barragens?

A ONU recomenda que se desenvolvam tecnologias para que as barragens possam ser extintas e os resíduos aproveitados. A tecnologia está muito ligada ao que a gente chama de economia circular, que é aproveitar tudo o que a mineração gera como resíduo. Aqui na UFMG nós já temos uma tecnologia patenteada. Uma das formas de reaproveitamento é o pelotamento a frio do rejeito das barragens, ou seja, a lama vai ficar com esferas de vários diâmetros de resistência bastante alta. Essas esferas vão poder ser usadas para pavimentar a parte profunda de estradas; vão poder ser usadas como agregado na brita, substituindo a brita em um concreto, melhorando a resistência; vão poder ser utilizadas em plantas e plantações para melhorar a drenagem; em vasos decorativos de arquitetura como hoje a gente usa aquelas bolinhas de argila calcinada; vão poder ser usadas na piscicultura e também na hidroponia. Esses experimentos já foram feitos com muito sucesso. Já temos bastante amostras.


E os custos para o reaproveitamento desse material?

O custo é muito baixo. É extremamente baixo. Já é um material que está moído. É um material que tem argila e ferro. É simplesmente uma calcinação, uma secagem e o pelotamento. O que nós fazemos é produzir uma pozolana com os rejeitos de mineração. A pozolana é um cimento que já existe no mundo desde a época do Império Romano. O Coliseu foi construído com pozolana. É uma cinza vulcânica. Essa cinza, milhões de anos depois, se transformou em uma pozolana. Aqui na UFMG temos uma tecnologia para calcinar, esquentar e transformar esse material em pozolana que é chamada pela ciência e pelas fábricas de cimento de metacaulim. Quem tem cimento, tem concreto, estradas, pontes, casas, tijolo, piso, temos tudo.

As empresas que estão ligadas ao mercado de commodities, que é um mercado de minério de ferro, o que elas têm para oferecer hoje é o minério de ferro em pó ou pelotas de minério. O valor desses produtos está muito ligado a variação internacional do preço do produto interno. O Brasil continua uma grande commodity. A gente exporta soja em grão e minério de ferro em pó. Em vez de agregar valor, a gente continua insistindo em exportar commodities e de uma forma bastante difícil. Não vejo o estado de Minas Gerais mudar a sua economia porque, mesmo assim, ela beneficia o Brasil inteiro. Então a gente está em um impasse bastante difícil.


O que falta para essa mudança econômica?

Falta inteligência, conhecimento básico de engenharia e de economia. É um sucateamento da história. As empresas do setor são extremamente fortes. Somente uma resolução de juízes e promotores poderia obrigar as empresas a aproveitar esse rejeito. Seria uma resolução do Estado, não uma resolução privada.

Na UFMG estamos com um projeto em parceria com a Universidade de Liverpool, na Inglaterra, que vai analisar duas barragens. São cientistas ingleses, americanos, brasileiros e italianos analisando desde a parte da engenharia da barragem até as consequências socioeconômicas do problema. Eu participo dessa equipe. Esse projeto foi assinado no final do ano passado e, no último congresso realizado no Rio de Janeiro, falou-se muito nos riscos de segurança de barragem. Apresentaram-se vários casos e a gente começa a entender como essas barragens foram construídas.

Elas foram construídas a partir dos anos 1970. No início não tinha nem projeto. E aí você começa a ter construtoras diferentes edificando em cima de algo que não se tem a planta do projeto anterior. É difícil um prédio ser construído cada andar por uma empreiteira e ficar em pé. Então até isso a gente acabou entendendo. Não existe um histórico disso. Com toda essa ruína que aconteceu, pelo menos a empresa está procurando projetos, procurando refazer projetos, dar manutenção, cuidar mais da população, mas tudo na visão dela.

O Peru, por exemplo, conseguiu uma situação bastante interessante. O local onde havia ouro e cobre era também uma área de pescadores e criadores de lhamas. Tinha uma economia local. A consultoria internacional aconselhou a empresa de mineração a fortalecer essa economia local e então em uns cinco anos eles ensinaram o pessoal a congelar trutas, fazer uma cooperativa de exportação e fazer o confinamento das lhamas para retirar a lã e o leite. No fim viraram duas cooperativas. A população ficou nutrida de emprego, dinheiro e prosperidade, e depois vinha a mineração.

No Brasil há uma questão histórica desde o ciclo do ouro e o ciclo do diamante que está aí até hoje. É uma economia extrativista em que quem paga mais é quem leva. Então essa reversão de economia, o incentivo à siderurgia e à metalurgia e a transformação do rejeito, o estado de Minas Gerais precisa disso. Deveria ser uma ação de cunho governamental. Acho que as ações até estão no papel, mas o poder público está falido para tomar decisões.

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