ENTREVISTA -

'Educação financeira deve começar na primeira infância'

‘O dinheiro não aceita desaforo’, defende presidente da Associação Brasileira de Educadores Financeiros, Reinaldo Domingos

Carolina Avansini – Especial para a Folha
Carolina Avansini – Especial para a Folha

A partir de 2020, as escolas brasileiras das redes pública e privada terão que ofertar, obrigatoriamente, conteúdos transversais relativos à educação financeira. A decisão está prevista na BNCC (Base Nacional Comum Curricular), que começa a valer integralmente este ano. O argumento que embasa a mudança é o fato de muitas famílias estarem endividadas por não possuírem uma boa relação com o uso dos recursos financeiros.  


'Educação financeira deve começar na primeira infância'
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“O dinheiro não aceita desaforo”, reforça Reinaldo Domingos, presidente da Associação Brasileira de Educadores Financeiros, entidade que liderou o movimento para inclusão da disciplina na BNCC. Terapeuta e PhD em educação financeira, ele mantém no YouTube o canal “Dinheiro à vista”, onde divulga dicas e orientações para apoiar mudanças de comportamento que vão favorecer a cultura de poupar dinheiro para realizar propósitos e sonhos.  




A decisão do Ministério da Educação é uma tentativa de solucionar um problema crescente no País que é o endividamento e a inadimplência, comprovando que o Brasil precisa de educação financeira. “A obrigatoriedade do tema desde o ensino básico, como determinou a BNCC, com certeza trará grandes resultados. Pois é nesse período que se tem a melhor absorção dos conteúdos, mostrando aos jovens uma realidade básica: é preciso lidar com o dinheiro de forma inteligente”, explica o especialista em educação financeira, Reinaldo Domingos, presidente da Abefin (Associação Brasileira de Educadores Financeiros). 

 

Como foi o processo que culminou na inclusão da educação financeira nas escolas? 

Em 2016, a Associação Brasileira de Educação Financeira realizou uma audiência pública junto ao Ministério da Educação, na Câmara de Deputados, para apresentar a linha de pensamento que propunha a inclusão da educação financeira na Base Nacional Comum Curricular, como tema transversal, tanto em escolas públicas como privadas, em todos os níveis da educação básica. Isso ocorreu entre 2017 e 2018. Tivemos a felicidade da base ser publicada com a obrigatoriedade de oferecer como tema transversal a disciplina de educação financeira. 

 

Na prática, como deve funcionar? 

Na realidade, eu já tenho desde 2008 a experiência de trabalhar educação financeira em escolas de todo o Brasil, não só como tema transversal, mas como tema disciplinar. Temos programas estruturados pedagogicamente em educação financeira, com livros didáticos e paradidáticos. São programas que envolvem o livro do aluno, o livro do professor, o livro da família e também cursos de capacitação do professor, com planos de aula e estruturas organizadas. O professor primeiro aprende para a própria vida e depois estará preparado para passar o conhecimento adiante. Isso já acontece com meio milhão de crianças que se educam financeiramente por meio dos meus livros e deste programa de educação financeira. Isso leva às nossas escolas uma possibilidade maior de inserção. As escolas - e até mesmo o governo - ainda não têm um programa estruturado que envolva a família. O segredo de todo esse trabalho de educação financeira é ter também a parte familiar para que o trabalho seja desenvolvido a quatro mãos entre família e escola. Essa relação é fundamental. 

 

Por que é importante a relação entre família e escola? 

Na educação financeira, quando olhamos para as famílias brasileiras, percebemos que não existiu em nenhum momento a educação das famílias para que eduquem as crianças neste tema. Por isso, temos muitos professores endividados, com o nome sujo … Entendemos que a primeira abordagem precisava ser com os professores, então, em 2009, criamos uma pós-graduação presencial em educação financeira - que hoje é oferecida em EaD (educação a distância) - para formar professores multiplicadores da metodologia, para que possam ministrar aulas de educação financeira. Esse processo não para na pós, temos mestrados e doutorados, pois é preciso haver acompanhamento pedagógico para que a relação entre escola e família seja mais próxima. A grande chave foi quando fomos para dentro da família, que hoje recebe cursos, palestras, livros e outros materiais para também se educar financeiramente. Quando a criança aprende na escola e vai praticar na família, os pais e outros familiares precisam estar conscientes de que ela já teve todos os ensinamentos. Portanto, a obrigatoriedade nada mais é do que a sacramentação de algo que foi plantado há dez anos.  

 

Como ensinar educação financeira para crianças? 

A educação financeira inicia-se na primeira infância, no maternal, e se estende ao fundamental 1, fundamental 2, ensino médio, universidade e pós-graduação, mestrado e doutorado. Quando olhamos para a criança, é preciso contextualizar que a educação financeira não se trata apenas de finanças pessoais e investimentos. Quando falamos de investimentos, planilhas e cálculos, falamos de finanças. Quando falamos de educação financeira, estamos nos referindo a uma ciência humana que trabalha comportamento e hábitos. Estamos falando de atitude, comportamentos de consumo, poupança… Não existe outra forma de ensino que não envolva metodologia. O que eu proponho é a metodologia DSOP, que significa diagnosticar, sonhar, orçar e poupar. Esses quatro pilares levam muitas pessoas a se educarem financeiramente. Por ser um comportamento, entendemos que é necessário ter um caminho para mudar seus hábitos. Os adultos costumam ter hábitos de consumo. Eles não aprenderam a poupar, mas sim a gastar. Nas crianças, começamos como o lúdico, o que pode ser inserido antes da alfabetização, para que elas tenham a oportunidade de entender como as coisas podem ser feitas e realizadas. O dinheiro deve ser apresentado como um realizador de sonhos e necessidades, o que envolve equilíbrio entre o ser e o ter. Ela precisa aprender isso de forma lúdica.  

 

O cofrinho é interessante? 

Sim, mas nunca trabalhe apenas um cofrinho, precisam ser três:  um pequeno, para projetos a curto prazo; um médio, para médio prazo; e um grande, para o longo prazo.  

O que colocamos no cofrinho? Moeda ou dinheiro? Eu sempre respondo que não é isso, no cofrinho nós colocamos desejos e sonhos. E quando você oferece duas moedas, uma para o chocolate e outra para o brinquedo que a criança mesmo vai comprar após poupar, é importantíssimo que, ao encher o cofre, os pais levem a criança à loja - mesmo que não tenha o valor necessário - para comprar o brinquedo e materializar o desejo. Com isso a criança vai entender que vale a pena guardar o dinheiro para realizar desejos. Com isso cria toda uma sinergia de que poupar para sonhos é muito importante. Em cima desta base vamos avançando sobre consumo consciente, sustentabilidade, cidadania, autonomia, empreendedorismo. Trabalhamos a criança de forma lúdica para que se torne um adulto educado financeiramente.  

 

E os jovens, como educá-los financeiramente? 

Para os jovens, eu indico um livro chamado “Ter dinheiro não tem segredo”. A ideia é trabalhar o jovem de forma individual. Nesta idade ainda temos muitos sonhos, o que costumamos trabalhar é o aspecto do empreendedorismo e da cidadania. O dinheiro vai permear o universo do jovem por toda a vida, pois tudo que ele quiser fazer vai envolver recursos financeiros, seja a curto ou a longo prazo. Incentivamos que ele desenvolva desejos e propósitos para a vida. É importante que isso seja desenvolvido a partir do recurso que ele recebe de mesada ou eventualmente dos pais. Ensinamos que o dinheiro não aceita desaforo, ele precisa evoluir e saber que, para fazer um intercâmbio, uma viagem ou comprar um carro, ele vai precisar ajudar a diminuir os custos da casa dele para colaborar com o pai. Também abordamos a área do trabalho, destacando tratar-se de um meio, e não um fim.  

  

Sempre é tempo para começar a se educar financeiramente? 

Quem quer se educar precisa pensar em desejos, sonhos e propósitos, sejam eles o carro novo, uma viagem ou a aposentadoria. É preciso pensar no que queremos, quanto é preciso para realizar e de onde vai tirar o dinheiro. O primeiro pilar da metodologia é o diagnóstico financeiro. É como se fosse uma fotografia do seu dinheiro, mostra por onde ele entra e por onde ele sai. É possível realizar sonhos desde que saibamos quando vai custar, como vai guardar, de onde vai tirar e o tempo que vai levar. 

   

Quais as atitudes recomendáveis para quem tem dívidas? 

Acabei de lançar um livro chamado “Nome sujo pode ser a solução”. Quando a pessoa está realmente endividada, falida, inadimplente - e a estatística mostra que 64 milhões de brasileiros estão nessa condição - é a situação mais favorável para começar uma nova vida. Quem está no fundo do poço e quer sair, realmente tem vontade e disposição. Neste sentido, é preciso pensar no que deseja para o futuro. A recomendação é avisar os credores que não nega a dívida e vai pagar como e quando puder. Tem que enfrentar o problema. Quando a pessoa está com o nome negativado, ela não tem mais crédito, o que significa que está pronta para começar de novo, ou seja, gastar apenas o que ganha. Fazer uma faxina financeira pode ser a solução para o problema, entendendo que as dívidas podem ser congeladas se ela buscar de 10% a 20% do valor total para uma futura negociação com o credor que provavelmente até já desistiu de receber.  

 

E quem está com a vida financeira em dia, mas não consegue poupar? 

São as chamadas pessoas equilibradas, que gastam o que ganham, mas não poupam. Estar equilibrado é a pior situação, pois mantém a zona de conforto. E aí há o risco de a pessoa nunca conseguir se aposentar. É preciso sair da zona de conforto e começar uma operação de guerra para realizar os sonhos. O orçamento financeiro que eu proponho é diferente, pois sugiro ganhar o dinheiro, tirar a quantia dos sonhos e depois pagar as despesas. É preciso sair da zona de conforto para realizar os planos de vida.

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