ENTREVISTA -

Dez anos sem o trabalho de Zilda Arns na Pastoral da Criança

Nelson Arns Neumann faz balanço do trabalho da entidade criada por Zilda Arns

Vitor Ogawa - Grupo Folha
Vitor Ogawa - Grupo Folha

O dia 12 de janeiro de 2010 foi marcado pela morte Zilda Arns, fundadora e coordenadora da Pastoral da Criança. Aos 75 anos ela estava em missão na cidade Porto Príncipe, no Haiti, e cumpria agenda de palestras na América Central, quando um terremoto de 7 graus na escala Richter fez a igreja ruir e ela foi atingida na cabeça por escombros. Dez anos depois, a reportagem da FOLHA entrevista Nelson Arns Neumann, filho de Zilda e coordenador internacional da Pastoral da Criança. Ele é médico formado pela UFPR (Universidade Federal do Paraná) e atuou em 1988 e 1989 como missionário leigo no Maranhão como médico. Com mestrado em Epidemiologia e doutorado em Saúde Pública, Neumann relembra do início do trabalho da Pastoral da Criança, cujo trabalho é o maior legado de Zilda. 


Dez anos sem o trabalho de Zilda Arns na Pastoral da Criança
Moacyr Lopes Junior/Folhapress/10-1-2001
 


Como era a sua mãe no dia a dia?

A mãe sempre foi de carregar os filhos juntos no que ela fazia. Antes, quando era criança, tinha uma rede de postos de saúde em Curitiba que ela coordenava e nas nossas férias, ela colocava junto no carro e ia ao clube de mães, às palestras que ela dava. Ela sempre fez muita questão de envolver a gente no dia a dia dela. Isso continuou sempre. Dom Pedro Fedalto sempre dizia que ela era extremamente focada. Quando começava uma coisa, levava até o final. 




Como sua mãe encontrava força nos momentos difíceis?

Primeiro ela tinha muita fé. Isso é um diferencial na Pastoral da Criança. Quando você está no serviço e tem uma briga com um colega ou um revés muitas vezes analisa a questão e avalia que não vale a pena continuar na obra. Na Pastoral da Criança, a provação faz parte da caminhada e nosso objetivo é maior. Você tem esperança na vida futura. E ela teve amigos especiais. Nos momentos de aflição ela ia a São Paulo conversar com Dom Paulo Evaristo Arns, irmão dela, e ele a orientava. Mais proximamente também tinha a tia Ida, o doutor Felipe e o Dom Geraldo Majella, que sempre foi uma força muito forte não só como arcebispo, mas como amigo mesmo.


A primeira reunião da Pastoral da Criança foi com Dom Geraldo Majella, em Londrina?

Isso. Diversos municípios foram estudados para a implantação. O que se buscava era um município com alta taxa de mortalidade infantil e razoavelmente isolado para atribuir os efeitos a essa intervenção. Por exemplo na RMC (Região Metropolitana de Curitiba) Balsa Nova foi um dos municípios cogitados, mas como estava próximo de Curitiba poderia haver interferência, porque as pessoas poderiam buscar um hospital ou ao melhor acesso aos serviços de saúde na capital e não se poderia atribuir os efeitos a essa intervenção, que na época era um projeto. Por isso foi escolhido Florestópolis. Dom Geraldo era conhecedor de dona Zilda porque veio do clero de São Paulo. Ela fez o curso de saúde pública em 1977 e toda semana Dom Geraldo era pessoa que tomava café da manhã ou almoçava com Dom Paulo e isso facilitou a implantação do projeto piloto.


Naquela época Florestópolis apresentava 127 mortes a cada mil nascidos. Era um dos mais altos do Paraná. Como foi esse início? Houve resistência?

Havia resistência, eu cursava Medicina na UFPR, no Hospital de Clínicas. E uma das críticas que se fazia na época era o fato de que na Pastoral da Criança leigos estavam fazendo papel de médico. A dona Zilda falava que os cuidados com a criança, como o aleitamento materno, acompanhamento de peso,  podem ser feitos em casa e não era preciso ser colocado em termos para médicos. O próprio soro caseiro, embora seja uma terapia, podia ser feito em casa.


E como surgiu o soro caseiro?

O soro caseiro, quando se começou em Florestópolis, era um soro de pacote produzido em indústrias e importado pela Unicef. Com o tempo se percebeu que a expansão ficava difícil, pois era difícil chegar ao local que precisava e muitas vezes a pessoa ficava muito tempo sem soro de pacote. Ela aproveitou uma experiência na África, que inventou a colher medida. Aqui o tamanho da medida foi refeito e adaptado, porque na África se usava o açúcar de beterraba e aqui se usa açúcar de cana-de-açúcar. Essa medida até hoje é conhecida como soro caseiro.


E a multimistura?  

A pediatra Clara Takaki Brandão fazia um trabalho de reaproveitamento alimentar. Ela foi até Londrina e fez diversos cursos aproveitando tudo o que havia na horta das pessoas. Às vezes até o mato que crescia no quintal e frutas. Ela seguia uma ideia com quatro princípios básicos: proporcionar um alimento regional, barato, de alto valor nutritivo e de bom paladar. Foi esse o conceito utilizado e teve bastante sucesso.


A Pastoral da Criança também usava uma balança simples, de braço…

No início foram utilizadas balanças de plástico redondas, que era o padrão da época, mas a mola cansava rapidamente e exigia aferição o tempo todo. Com o sistema de balança de braço e não precisava disso. Possibilitou que se amarrasse a balança em um galho de árvore ou em um caibro da capela ou de uma casa. Tinha flexibilidade grande. 


Para arregimentar os primeiros voluntários foi muito difícil?

Todos os pais que querem salvar os seus filhos se agarram na primeira alternativa que possibilita isso. Como o efeito do trabalho da Pastoral foi muito rápido, era muito fácil de ver que o resultado encantava as pessoas. Todo mundo tinha uma experiência de mortalidade infantil na família.


O trabalho sempre foi ecumênico?

A dona Zilda sempre contou que a filha de um pastor ajudou desde o início como enfermeira. Foi uma entidade que já nasceu ecumênica. Tanto que em julho do ano passado realizamos um encontro que reuniu mais de 20 religiões trocando experiências sobre como atingir objetivos. 


Qual foi a razão do sucesso da Pastoral?

Naquela época colocaram um agente de saúde por comunidade e a doutora Zilda achou que não era compatível, porque as famílias eram muito pobres e não tinham recursos para pagar as pessoas e não tinham como exigir que uma pessoa atendesse voluntariamente uma comunidade. Aí ela criou esse modelo de uma líder acompanhando no máximo 15 crianças. Isso teve efeitos secundários interessantes. O primeiro foi o fato de não ser remunerado. Assim qualquer um podia começar o mesmo trabalho na outra paróquia depois de fazer um treinamento e não tinha burocracia de um contrato. O segundo ponto foi resolver o problema de rotatividade, que existe até hoje nos sistemas de saúde ao redor do mundo. Quando se capacita um médico ou uma enfermeira, um ano depois esses profissionais já não estão mais no local. A rotatividade é imensa chega 30% a 40% depois de um ano. Com os voluntários não há esse problema. O terceiro efeito é a descentralização do poder. Novas lideranças surgiram e isso beneficiou as comunidades. Eu trabalhei no Maranhão em 1988 e 1989, e via que toda comunidade tem uma pessoa que exerce ascendência sobre outros, que era como chefe da comunidade. Algumas boas, outras nem tanto e outras que toda boa oportunidade puxava para a sua família. 


Qual foi a reação de sua mãe quando surgiram os primeiros resultados?

Ela era acostumada com pesquisa e de certa forma o resultado já era esperado. Um fato emblemático foi quando um consultor peruano da Unicef passou por Cambé, voltando para Londrina, e quando passaram em frente a uma funerária viram vários caixões para crianças. Eles pararam para conversar com o dono da funerária para saber para que tantos caixões. O dono da funerária disse que era para a mortalidade infantil, mas que depois que começou uma “tal de pastoral” encalhou tudo. O consultor da Unicef deu pulos de alegria. A resposta foi muito rápida. O trabalho encantou o mundo inteiro, não foi só o Brasil.


Hoje são quantos voluntários no Brasil?

Somos 118.638 voluntários em todo o Brasil. Esse é o dado que temos do terceiro trimestre de 2019. 


E quantas crianças foram atendidas?

Hoje temos em torno de 1 milhão de crianças atendidas em 11 países, segundo nosso acompanhamento mensal. Acompanhamos as crianças por seis anos e muitas vezes esses atendimentos se repetem, atendendo a mesma criança. Podemos ter acompanhado por 3 ou 4 meses ou algumas por 4 anos. Mas a migração em países pobres é muito grande. Gira em torno de 30% a 40% ao ano, então não sei dizer quantas atendemos. Certamente foram muitos milhões.


No começo do trabalho da Pastoral o foco foi a desnutrição. Agora é a obesidade infantil?

Temos dois tipos de movimento. O primeiro ponto é que a desnutrição reduziu muito. Na Pastoral da Criança são raras as crianças com desnutrição. As que possuem isso em geral têm alguma enfermidade associada, como uma doença celíaca, um problema cardíaco ou infecções de repetição. Têm surgido alguns desses superdesnutridos no Acre e na Bahia, mas o que era o dia a dia nos anos de Florestópolis agora surge um caso ou outro. Mas as doenças inibidas por vacina, a gente achava que era um problema superado e agora surgem casos de sarampo. Eu tenho também o ressurgimento de outras doenças, como a dengue, o sarampo e a própria sífilis congênita. São doenças que a gente achava que estariam erradicadas nesta altura do campeonato.


E quais os próximos passos da Pastoral?

Sempre teve uma queixa da classe média ou alta, ou mesmo de profissionais de saúde de que não tinham acesso ao conhecimento científico gerado pela Pastoral. A gente só tinha recursos para capacitar e material para imprimir para chegar nas comunidades pobres. Hoje, com as mídias sociais, o site da Pastoral da Criança e o aplicativo que pode baixar na PlayStore, qualquer um tem de imediato acesso a esse conhecimento. Uma professora de Harvard nos visitou no ano passado e olhou a bibliografia que usávamos. Ela disse que era o que estava dando aula de saúde pública na universidade, elaborado em uma linguagem mais acessível. Ela ficou absolutamente encantada com o fato dessas informações estarem chegando para todas as comunidades pobres.


Qual o retrato fiel da Pastoral hoje?

A ideia da Pastoral da Criança é sempre atender as crianças pobres e também servir de exemplo para que as políticas públicas seguissem as metodologias que foram utilizadas de forma a atender a 100% das crianças. Ainda hoje temos contato muito forte com a área de alimentação e nutrição do Ministério da Saúde. Os testes, a maneira de acompanhamento, os indicadores são feitos primeiro pela Pastoral da Criança. A gente prova que funciona e é possível e o governo acaba incorporando, assim como fez com os agentes comunitários de saúde, com a estratégia de saúde da família e com a importância de educação em saúde. A gente sempre vai ter atendimento direto em grande escala, mas também serve para provar que é possível seguindo essas estratégias e essa maneira de disseminação de conhecimento o governo pode incorporar e alcançar todas as crianças. Tem certas coisas que o governo não consegue fazer mesmo. Essa rede de solidariedade é um dos exemplos.

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