50 anos de histórias


Carolina AvansiniReportagem Local
Carolina AvansiniReportagem Local

Quem foi criança no Brasil nas últimas décadas certamente conhece a história do menino que, um dia, resolveu inventar uma nova linguagem para se comunicar com as pessoas. "Marcelo, Martelo, Marmelo", um clássico da escritora Ruth Rocha, é sua obra mais conhecida, tendo vendido mais de dez milhões de exemplares desde que foi lançado. A autora, que completou 86 anos no dia 2 de março, também está comemorando 50 anos de carreira.

Há cinco décadas, uma das mais importantes escritoras da literatura brasileira infantil vem divertindo e emocionando gerações com suas histórias baseadas em assuntos cotidianos que ganham vida nas páginas dos livros. Pela rica contribuição à formação de milhares de crianças ao longo dos anos, Ruth Rocha merece uma grande festa.

Personagens célebres como as tão diferentes amigas Terezinha e Gabriela, as borboletas Romeu e Julieta – que no final da década de 60 já falavam às crianças sobre tolerância e diversidade -, a turma do Catapimba, tão identificada com os acontecimentos da infância que muitas vezes passam despercebidos pelos adultos, o Reizinho Mandão, o Ventinho que quer participar de uma festa na escola e o camaleão que aprende a duras penas que não dá para agradar todo mundo, em "Bom dia, todas as cores", são apenas alguns exemplos do vasto universo da autora.

Ruth Rocha:"A moral é fechada, diz para a criança como ela deve agir, mas o interessante é deixar o caminho aberto"
Ruth Rocha:"A moral é fechada, diz para a criança como ela deve agir, mas o interessante é deixar o caminho aberto" | Divulgação



O passar do tempo não apagou a postura crítica e a habilidade de lidar com temas diversos de forma simples e divertida. Em obras mais recentes como "Boi, Boiada, Boiadeiro", a autora aborda a cultura brasileira; em "O menino que quase morreu afogado no lixo" e "Quem vai salvar a vida?" Ruth discute a questão da conscientização ambiental, e na série "O que é, o que é?", o pequeno leitor se diverte com charadas e adivinhações.

Paulistana, Ruth Rocha ouviu da mãe, Esther, as primeiras histórias, mas foi seduzida pelo avô Ioiô para o universo literário infantil, através dos clássicos dos irmãos Grimm, de Hans Christian Andersen e de Charles Perrault. Foi a leitura de "As reinações de Narizinho" e "Memórias de Emília", de Monteiro Lobato, porém, que a arrebataram de vez para uma vida cercada de livros.

Formada em Ciências Políticas e Sociais pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo, Ruth conheceu na faculdade Eduardo Rocha, com quem se casou e herdou o sobrenome que a tornou famosa. Viveram juntos por 56 anos, até o falecimento dele, em 2012. Tiveram uma filha, Mariana, inspiração para as primeiras criações da escritora.

A vida profissional de Ruth começou na educação. De 1957 e 1972, foi orientadora educacional do Colégio Rio Branco em São Paulo e, na mesma época, começou a escrever sobre educação para a revista Cláudia. Encantada pela visão moderna de Ruth sobre o tema, a diretora da Revista Recreio, Sonia Robato, a desafiou a escrever uma história infantil. Foi assim que nasceu "Romeu e Julieta", a primeira de muitas histórias que ela publicaria na revista voltada ao público infantil e da qual se tornou diretora.

O primeiro livro, "Palavras, muitas palavras", foi publicado em 1976 e já encantou pelo tom direto e coloquial, até mesmo libertador. A produção de Ruth também deu eco à resistência contra a ditadura militar, em livros como "O Reizinho Mandão" e "O que os olhos não veem".

Nestes cinquenta anos, Ruth Rocha lançou mais de 200 títulos e já foi traduzida para vinte e cinco idiomas. Recebeu prêmios da Academia Brasileira de Letras, da Associação Paulista dos Críticos de Arte, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, além do prêmio Santista, da Fundação Bunge, o prêmio de Cultura da Fundação Conrad Wessel, a Comenda da Ordem do Mérito Cultural e oito prêmios Jabuti, da Câmera Brasileira de Letras.

Desde 2009, a Editora Salamandra detém exclusividade sobre a obra literária da autora. A casa editorial é responsável pela Biblioteca Ruth Rocha, projeto que revisa todos os seus livros e oferece a muitos deles uma nova roupagem e ilustrações inéditas. Suas obras estão divididas nas séries: As Coisas que Eu gosto, Os Medos que Eu Tenho, As Dificuldades que Eu Tenho, Conta de Novo, Vou te Contar!, Quem Tem Medo?, Marcelo, Marmelo, Martelo, Pulo do Gato, As Aventuras do Alvinho, Toda Criança do Mundo, A Turma da Nossa Rua, Constelação, Conte um Conto, Ruth Rocha Apresenta, Meninos, Eu Vi!, Palavras, Muitas Palavras, O que é, o que é, O Reizinho Mandão, De repente Dá Certo e Ruth Rocha Conta.

Autora critica livros com lição de moral
Aos 86 anos, a escritora Ruth Rocha continua brindando o mercado da literatura infanto-juvenil com novos livros. Ela lança em 18 de março, em São Paulo, a coleção "Coisinhas à toa que deixam a gente feliz". São quatro volumes, com 32 páginas cada, dois de autoria de Otávio Roth e dois inéditos de Ruth, em edição especial e limitada. Compostos por 24 versos e ilustrados por Mariana Massarani, os livros revelam e valorizam os pequenos prazeres cotidianos, como cheirar mato molhado, estourar plástico bolha e vestir pijama de flanela.

Questionada sobre possíveis mudanças nas crianças contemporâneas em relação aos meninos e meninas de outras décadas, Ruth Rocha é enfática: "as crianças não mudaram em nada." Em entrevista à FOLHA, ela conta que livros escritos há 50 anos, como "Marcelo, Martelo Marmelo", continuam agradando.

"O que mudou foi o mundo e mudou também a educação, que se tornou mais livre e menos punitiva. As crianças também passaram a se interessar por coisas novas, que são as tecnologias. São coisas que competem com a leitura, mas também não acho que as crianças de outras épocas liam mais. Eu mesma estudei em excelentes escolas e não tinha com quem conversar sobre Monteiro Lobato porque as outras crianças não liam", compara. Para ela, aliás, o contexto atual é mais positivo para a literatura infantil. "As escolas têm bibliotecas e o Brasil já edita livros bonitos, bem ilustrados e coloridos."

Dona de uma linguagem que fala às crianças sem julgamentos, Ruth questiona a onda de livros com "lição de moral" para os pequenos. "A moral faz parte da literatura antiga, punitiva. A moral é fechada, diz para a criança como ela deve agir, mas o interessante é deixar o caminho aberto", defende. O sucesso dos próprios livros ela atribui à característica de falar a mesma linguagem das crianças, mas também à boa estratégia de distribuição das primeiras obras, que foram vendidas em bancas e depois pelo Clube do Livro.

Apesar do gosto das crianças pelas tecnologias, Ruth não acredita que se interessem pelos livros digitais. "Elas gostam mesmo é de papel, meus livros em versão digital não venderam nada", diz ela, que apesar da opinião costuma ler no tablet, onde é possível aumentar as letras. "Eu enxergo mal", justifica.

Para os escritores que começam a se aventurar pela literatura, ela ensina que os melhores autores são os mais sinceros consigo mesmo. "Devem escrever o que acreditam e não ir atrás de modismos. As vendas vêm quando os livros são bons", garante. Outra dica importante é ler muito. "Quem lê forma estilo. Escritor que não gosta de ler é impossível." (C.A.)

Crianças ‘nem piscam’ na hora da leitura
A escritora Ruth Rocha é onipresente nas atividades do projeto ‘Palavras Andantes’, realizado rm 86 escolas municipais de Londrina. Conforme explica a coordenadora Márcia Batista de Oliveira, em todas as escolas há um professor que realiza a contação de histórias, empréstimo de livros e organização das bibliotecas escolares. "Eles realizam um trabalho muito importante voltado ao fomento da leitura", destaca, lembrando que, graças ao trabalho, muitos estudantes já desenvolveram o hábito de escolher os livros pelo nome dos autores.

A professora Rosângela Almeida Netzel é responsável pelo ‘Palavras Andantes’ da Escola Municipal Mábio Palhano Gonçalves, no conjunto Ouro Branco (zona Sul), e garante que Ruth Rocha está entre os preferidos das crianças.

A professora Rosângela Almeida Netzel, do projeto ‘Palavras Andantes’, garante que Ruth Rocha está entre os preferidos das crianças
A professora Rosângela Almeida Netzel, do projeto ‘Palavras Andantes’, garante que Ruth Rocha está entre os preferidos das crianças | Anderson Coelho



"Na escola temos o projeto ‘Leitura do Autor’, através do qual cada ano estuda um autor específico. O autor do terceiro ano é a Ruth Rocha", revela. Por isso, a escritora já foi representada em trabalhos de pesquisa, cartazes e peças de teatro. "Ruth Rocha é didática sem se perder da literatura", elogia.

Os temas tratados nos livros e a linguagem aproximada do universo infantil sempre encantam as crianças, que "nem piscam" enquanto estão ouvindo a leitura das obras. A professora observa que a literatura incentiva os mais novos a realizarem uma autorreflexão, o que ajuda a resolver problemas relacionados à própria vida. "Percebo que quando comentam sobre os livros, dão exemplos práticos relacionados à própria realidade. Tenho certeza que Ruth Rocha ajudou muitas crianças desta forma", afirma.

Rosângela só conheceu a autora depois de adulta, mas logo se tornou fã e não se cansa de ler os livros para os alunos. Entre as histórias preferidas, ela cita "O que os olhos não veem". "É a história de um rei que não conseguia enxergar os pequenos e fracos, então essas pessoas passaram a usar pernas de pau para fazer suas reivindicações. As crianças percebem o tom crítico e adoram", conta. (C.A.)

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