AVENIDA PARANÁ -

O julgamento do cronista

“Em um Estado laico, meritíssimo, ele ousa pronunciar o nome de Deus em suas crônicas”

O cronista foi conduzido por dois guardas revolucionários até o banco dos réus. Usava algemas. O juiz-companheiro declarou aberta a sessão e chamou a primeira testemunha de acusação: o jornalista.  

O julgamento do cronista
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— Companheiro meritíssimo, é evidente que esse indivíduo afrontou a nossa Constituição Cidadã e o código de ética profissional. Veja, em um Estado laico, ele ousou pronunciar o nome de Deus em suas crônicas. Como todos sabem, desde a Revolução Francesa isso é um crime...  



Depois veio o professor universitário:  

— Felizmente, conseguimos derrubar a tirania dos milicianos, mas os seus apoiadores continuam agindo nas sombras. Este senhor sentado nos réus é um fascista. E fascistas não deveriam existir!  

O cientista político declarou:  

— Tudo que esse cronista quer é conduzir-nos de volta às trevas da Idade Média. Mas ele nada pode fazer contra a marcha inexorável da história.  

Ao ouvir a palavra “história”, o católico progressista teve um arrepio. Na sua vez de falar, bradou:  

— Esse falso cristão está preso às velhas tradições, ignora o mundo moderno e, acima de tudo, pratica o discurso de ódio. Depois que o nosso pontífice se reuniu com Lula, anos atrás, ele continuou criminalizando o Partido dos Trabalhadores. E mais ainda, meritíssimo companheiro: trata-se de um negacionista. Tem a petulância de dizer que nunca houve um golpe das elites para a deposição da presidenta Dilma e a posse do Miliciano! Ele chama o golpe de “democracia”.  

Em seguida, veio o conhecido protestante.  

— Eu disse ao réu que ele deveria vir para uma das 400 igrejas evangélicas de Londrina, mas ele tomou isso como ofensa. Respondeu que abandonar a Igreja Católica seria como arrancar o próprio coração.  

A feminista atacou:  

— Esse defensor do patriarcado nega a culpa coletiva dos homens nos casos de violência contra a mulher. E quer proibir as aulas de gênero para nossas crianças!  

O sindicalista discursou:  

— É um traidor da categoria, um serviçal dos patrões, um escravo do capital, um fura-greve. Ah, e continuou lendo e escrevendo, mesmo depois de ter cassado o seu registro profissional.  

A ambientalista fustigou:  

— É gente como ele que fez a Amazônia queimar!  

Ao final da fase de depoimentos, antes de ler a sentença, o juiz voltou-se ao réu:  

— Sr. cronista: além de tudo que foi mencionado pelas testemunhas, o sr. é acusado de ler e divulgar as obras do famigerado guru e astrólogo Olavo de Carvalho. Diante disso, o sr. tem algo a declarar?  

 — Sim, meritíssimo companheiro. Declaro-me culpado.  

O cronista juntou as mãos algemadas, fechou os olhos e começou a rezar.  



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