Liberdade, essa palavra...

Carta do professor Ricardo da Costa é um manifesto histórico pela liberdade de pensamento na Universidade

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Um querido amigo, o professor e historiador Ricardo da Costa, da Universidade Federal do Espírito Santo, escreveu uma carta de lançamento do movimento nacional Docentes pela Liberdade. Trata-se de um documento histórico, que vale a pena compartilhar aqui para refletirmos sobre os rumos da nossa Universidade:



“O nome é sugestivo. Um anseio coletivo. Promete libertar-nos dos grilhões da ideologia. O nome combate o assédio, estimula a coragem, incita ao diálogo. Reúne solitários dispersos pelo Brasil. Pensávamos sermos únicos face à monstruosa vaga que se avolumou na Educação após décadas de hegemonia gramsciana. Não! Existe esperança, dom divino, virtude infusa, clássica, verdade da vida. Isso porque somos alçados pelas tribulações: a adversidade produz paciência; a paciência, experiência; a experiência, esperança, ensinou o apóstolo Paulo.



E como fomos atribulados! Afligidos pelos insetólatras – deterministas, extremistas, partidários do autoritarismo – sofremos, mas aprendemos a resistir. E resistimos. E sobrevivemos.



E aqui estamos. Reunidos sob a elétrica batuta do Prof. Dr. Marcelo Hermes-Lima, sob o vulcão de sua infindável energia, agregadora, incentivadora, altissonante, estamos hoje reunidos para apregoar o lançamento de uma frente acadêmica contra o obscurantismo das esquerdas. A favor da democracia, da tolerância, do diálogo, repitamos.



Assim como a maior parte de nós, comi o pão que o diabo amassou, escarrou, escarneceu, vomitou, gargalhou, pisoteou, cuspiu, defecou, urinou, xingou. Amaldiçoou. Resultado: em 2007, de fraldas, no CTI, com a metade do corpo inerte após um AVC tronco-cerebral, recebi a extrema-unção.



Foi quando decidi não silenciar mais. Após sete anos satânicos, convivendo em um ambiente acadêmico verdadeiramente infernal, pensei: ‘Ora, quiseram lá em cima que eu ainda ficasse por aqui. Deve haver um bom motivo...’. Após ano e meio de recuperação – para voltar a andar e a movimentar o esqueleto – passei a responder. Republicanamente. Institucionalmente. Processualmente. E fiz minha peregrinação intelectual: da História para a Filosofia, da Filosofia para as Artes. E sempre com a Literatura. Sempre com os clássicos, nunca com os modernos. Platão a Maquiavel, Aristóteles a Nietzsche, São Bernardo a Foucault, Santo Agostinho a Derrida. Santo Tomás de Aquino a Heidegger!



Mas, como disse, a adversidade produz paciência. E, em meu caso, também conhecimento. Mais: com humildade, Sabedoria. Assim, aprendi a ser interdisciplinar. A transitar nas Humanidades, famigeradas Humanas, infelizes Humanas maltratadas pelo amargo maquiavelismo interpretativo ‘até que se prove o contrário, são todos culpados’ (com exceção do Lula que, apesar de todas as provas, ainda é inocente).



Não sou maquiavélico, mas humanista. Pois nada do que é humano me é estranho, poetizou Terêncio.



Fui às ruas. Fomos, não? Atravessamos pontes, caminhamos no asfalto. Oferecemos a cara a tapa. Nesse aspecto, não sejamos modestos, mas imodestos: fomos corajosos. Somos.



E uma inesperada reviravolta política aconteceu. A Divina Providência empurrou a faca para o outro lado. E o candidato derrotou o establishment. Inacreditável, ainda medito. Mas agarremos a oportunidade. Reunamo-nos e apregoemos a liberdade. E que sigamos as palavras do imperador filósofo, Marco Aurélio: que em nosso movimento, a lei seja igual para todos; que haja respeito a direitos iguais; que vigore igual liberdade de expressão e uma real consciência que respeite, acima de tudo, a liberdade dos espíritos.



Docentes pela Liberdade, sejam muitíssimo bem-vindos!”

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