AVENIDA PARANÁ -

Crônica para o meu pai

Paulo Lourenço completaria 79 anos neste domingo. Ele era o melhor cronista da família, meu mestre na literatura e na vida

Hoje acordei pensando em meu pai, que completaria 79 anos neste domingo. Vasculhando meus arquivos, encontrei esta crônica que fiz em homenagem a ele 15 anos atrás. De lá para cá, muitas coisas mudaram, mas permanecem iguais o amor e admiração que eu sinto por Paulo Lourenço, agora acrescidos da saudade. 

Crônica para o meu pai
Arquivo Pessoal
 


Foi num domingo que ele nos deixou.  ****** 

Quase todos os dias, o telefone toca por volta das sete e meia da manhã. É o momento em que estou adoçando o café instantâneo ou enrolando na cama antes de me levantar. Mais ou menos ao terceiro toque, atendo. Sei que é ele: 



— Alô, Paulão! 

Só o meu pai me chama de Paulão. O que, afinal de contas, é um contrassenso, já que ele também se chama Paulo e, por mais velho, lhe caberia o aumentativo. 

Meu pai diz que não dá bola para o Dia dos Pais. Com seu antigo cacoete esquerdista, afirma que a data não passa de uma invenção da sociedade de consumo. Nem quer receber presente: 

— Se for pra dar presente, então me dê um livro. 

Esse gosto pelos livros é um dos presentes que meu pai me deu ao longo da vida. Na prateleira dele, encontrei os nomes e páginas que me marcaram para sempre: “Guerra e Paz”, de Tolstói; “Trópico de Câncer”, de Henry Miller; “Cem Anos de Solidão”, de García Márquez; “A Coleira do Cão”, de Rubem Fonseca... Sem contar os contos de Kafka, o “Pneumotórax” de Manuel Bandeira, e até Novo Testamento que ele comprou em 1962, numa tarde de sol – conforme escreveu na primeira página, numa dedicatória involuntária. Gostamos tanto de livros que até escrevemos um – a quatro mãos. E estamos preparando outro. (Só para informação do leitor: ele é o melhor cronista da família.) 

Mas também ganhei outros presentes de meu pai — aqueles que a gente não conhece pelos livros. As sessões de cinema quando viajávamos para São Paulo. As tardes de pescaria em que meu avô e sogro dele, o Seu Briguet, era o companheiro. O conselho franco que me fez desistir de ser jogador de futebol (“Você não sabe nem fazer uma embaixada!”). A cervejinha com bate-papo, antes do almoço de domingo.

A dedicação metódica e incansável à mulher (minha mãe), à filha (minha irmã) e à sogra (minha avó). As partidas de xadrez que ele sempre ganhava. As caronas e as declarações de imposto de renda. As piadas. As caminhadas. As visitas aos cemitérios de Araçatuba e Mirandópolis. Os conselhos antes das noitadas: “Olha lá, exercício da moderação!” As manias – de deixar tudo por escrito; de elaborar listas; de não deixar as coisas para amanhã. 

Certa vez eu ouvi o personagem de um filme dizer: 

— Desejo que você tenha um filho igual a você. 

Olho para uma foto em que meu pai estava no Exército. Vejo que o tempo nos aproxima cada vez mais: ele já não tem o dobro da minha idade. Percebo como somos parecidos; talvez não nos traços, mas no ar, na expressão, numa vaga melancolia, na atitude diante do mundo. O telefone vai tocar hoje, por volta das sete e meia. Estarei lá, adoçando o café instantâneo, e pensando no filho que ainda não tive. Quando ele nascer, eu lhe direi: 

— Quero ser um pai igual ao seu avô. 

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