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Folha 2
12/08/2017

Lembranças do pai

O encantamento pela corrida espacial e o amor pelas plantas estão entre as memórias que guardo dele

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Tive a sorte de ter um pai maravilhoso, mais que sorte, uma graça, dessas que vem pelo desígnio dos céus quando Deus olha distraidamente aqui para baixo e diz : "Esta será sua filha."
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O homem que tive como pai era bom, tinha sensibilidade para dar a valor à leitura, às coisas da ciência, e me ensinou bem cedo a olhar para o alto e ver o infinito sobre o qual tecia histórias mirabolantes, algumas absolutamente verdadeiras – como saber que Marte não é estrela, mas planeta – e outras poetizadas como a "chuva de estrelas", quando queria me explicar sobre meteoritos.
Já relatei aqui algumas de minhas lembranças: a paixão de meu pai pelas corridas espaciais, o encantamento e a angústia pela viagem da cachorrinha Laika à Lua – aquela mesma que explodiu no espaço com o foguete russo que a levava a bordo – o amor pelas plantas e quintais, as criações excêntricas como fabricar perfumes ou gaiolas especiais para as galinhas, cujos ovos caiam milimetricamente em cestas acopladas embaixo do artefato num tempo em que ninguém cogitava ter granjas tão modernas. Seu Antônio era muito engenhoso em seus inventos.

Tenho uma coleção de memórias do pai que me tomava pela mão ensinando-me a "olhar à esquerda e à direita antes de atravessar a rua", a buscar no dicionário as palavras difíceis, além de esconder num baú misterioso livros que julgava não serem apropriados aos filhos pequenos. Sobre isso, descobri mais tarde algumas raridades como os volumes da editora Círculo do Pensamento. Há poucos anos, estive bem em frente à antiga sede do Círculo no bairro da Liberdade, em São Paulo, tão misterioso quanto o baú de meu pai, com esculturas de titãs em formato de colunas como um aviso aos desavisados: "Aqui o pensamento é alto e nem todos o adentram." Fotografei todas aquelas figuras, lamentando não ter mais o pai para mostrar-lhe como está hoje o templo de filosofia e esoterismo que embalou seus sonhos sobre outros planos da existência.
Neste Dia dos Pais, sei que nem todos têm lembranças ternas. Conversei com amigos que lamentam o pai que tiveram, o alcoolismo, a violência doméstica, o excesso de críticas, as exigências descabidas, a ausência e a omissão de afeto estão dentre as queixas comuns. Neste ponto, apenas o perdão pode amenizar algumas amarguras, se bem que eu reconheça que o filme não volta, as experiências são únicas e muito pessoais. Entre a plenitude amorosa e o rancor há uma ponte de vida, acertos e erros. A gente não consegue revisar algumas histórias.

Ilustração: Marco Jacobsen
Ilustração: Marco Jacobsen


Outros lamentam o Dia dos Pais ter se tornado uma data comercial, como tantas outras que só existem para impulsionar as vendas. Confesso que acho um exagero a associação absoluta entre as duas coisas, mas também gostava de comprar camisas e livros para dar de presente nas datas especiais.
Já se passaram 28 anos do falecimento do meu pai. Antes minha mãe já havia partido, de modo que existiria um vazio nestas datas não fossem as lembranças que preenchem tudo, histórias feitas de casos e acasos, enredos do cotidiano, pequenas e grandes provas de afeto: desde o cuidado para atravessar a rua ao olhar amoroso quando saí de casa para estudar em outra cidade e nunca mais voltei.
A lembrança dos pais que já se foram podem ser tão doloridas quanto delicadas. Fico com a delicadeza como se voltasse no tempo e visse os relógios que meu pai consertava com o mesmo cuidado com que nos educava: dando corda à nossa imaginação, corrigindo a rota dos ponteiros, conhecendo por dentro a "maquinaria humana" com seus eixos alinhados para ter precisão na vida.
Por tudo isso, pai, obrigada pela sua criatividade, engenhosidade e amor profundo. Hoje deixo aqui o meu presente em forma de palavras.
celia.musilli @ gmail.com
celia.musilli @ gmail.com
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